
Vamos começar uma resenha de show diferente. Falando de assuntos não tão aletórios quanto parecem. Vamos começar falando da passagem de Roger Waters por Curitiba em 27 de outubro de 2018, depois de ter rodado pelo país demonstrando um senso crítico político difícil de engolir para muitos. Afinal, poucos escutaram Pink Floyd como deveriam. Eu inclusive. Peço que abra sua mente e viaje comigo por um fluxo de pensamento.
A palavra fascismo vem do italiano fascio, que significa feixe. Guardas-costas que detinham o poder na Roma Antiga geralmente carregavam um machado revestido por varas de madeira e podiam utilizá-lo para punição corporal, sendo que o objeto também era um símbolo de autoridade e união.
Aí chegamos ao século 20. Mussolini se apoderou desse símbolo para fundar um novo partido. Devido à situação delicada da Itália, era prometida a volta dos tempos de glória. A velha história de resolução de problemas complicados com resoluções aparentemente simples.
Surgiu, então, o Manifesto Fascista, que propunha um conjunto de medidas para resolver a crise da época. Nas décadas seguintes, o termo “fascismo” passou a ser usado para designar as políticas adotadas por Mussolini e seus seguidores.
Resumindo, trata-se de um “manual” para um governo totalitário que privilegiou conceitos de nação e raça sobre os valores individuais. Enfim, Benjamin Franklin disse: “Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança”. Discordo. Não é questão de merecimento. É momento de instrução. Então, vamos conversar.

Roger Waters: stay human! | Créditos: Fernando Favero / Curitiba Cult
Não existe, infelizmente, um consenso sobre a definição desse movimento. George Orwell, no seu ensaio “O que é Fascismo?”, afirma que as definições populares do termo vão de “democracia pura” a “demonismo puro”. Uma confusão só. Então, vamos nos ater no que converge o termo contemporaneamente, nos dias de hoje.
Não existem regras definidas para o termo, mas, o que podemos afirmar, é que se trata de algo unilateral. Interesses do governante sobre a maioria, enforcando a minoria. Cada pessoa vai utilizar a palavra conforme lhe convier, o que é normal na linguagem, na comunicação. Falemos de como é utilizada hoje no Brasil. O que representa. Veja, sou só um leigo divagando. Pense comigo, reflita.
Quando direitos que nem deveriam ser discutidos depois de tantos séculos de sabedoria são ameaçados por ortodoxia unilateral de um governante, o fascismo está presente. Quando vozes são caladas por divergências quaisquer, apenas por discordarem de algo pautado, o fascismo está presente.
Quando, em pleno século 21, superada a era da escravidão, aparentemente, já que, segundo a ONU, afeta 40 milhões de pessoas no mundo, e o trabalho infantil atinge 152 milhões, alguém ironiza a dívida social com essa parcela significante da sociedade, dizendo que foi num quilombo, local de refúgio dos africanos e afrodescendentes escravizados em todo o continente americano, e que o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Que essas pessoas não fazem nada, que acha que nem para procriadores servem mais, o fascismo está presente. Pelo menos no contexto brasileiro e, aparentemente, mais extenso. Roger Waters o citou. Um músico, cantor e compositor inglês. Um dos fundadores da banda de rock progressivo/rock psicodélico Pink Floyd, na qual atuou como baixista e vocalista.
A que ponto quero chegar? Pense no seu vizinho, de quem você pode nem gostar muito, mas que de forma alguma ofenderia. Pense no seu colega de trabalho. Pense em uma pessoa, com sentimentos, com sofrimentos, com histórias, só pense nela. O filme Vidas Cruzadas aborda justamente isso. O quanto somos preconceituosos em nossa concepção e o que podemos fazer para mudar injustiças. O quanto estamos dispostos a enfrentar inúmeras pessoas doutrinadas para fazê-las pensar por um viés diferente. Fazê-las perceber que uma “piada” pode ser ofensiva quando utilizada de modo pejorativo. No sentido de diminuir alguém por uma característica que lhe é inerente ao nascimento. Cor de pele. Orientação sexual. Local de nascimento. Qualquer coisa que esteja fora do controle social, que aconteça. Que, simplesmente, aconteça.
Pense em um ser humano como você, só que rebaixado, rechaçado, fora de um contexto no qual apenas selecionados estão presentes, espancado por ser o que é, repudiado por existir. Coloque-se no lugar de um preto, nesse primeiro momento, que é visto como segurança, servindo a alguém, ou como infrator potencial. Que é marginalizado. Não tenho fala nisso, já que sou homem, cis, branco, homossexual. Só que percebo o que ocorre. Perceba também a política de tornar características afrodescendentes decadentes, de condenar suas religiões, de seguir cada indivíduo em um shopping como perigo potencial, de excluí-lo do que deveria ser acessível a todos numa sociedade utopicamente ideal, sem preconceitos, sem demonizações, deixando, que seja, que o cabelo crescer como ele é. Sem chapinha. Livre.

Roger Waters: prisma | Créditos: Fernando Favero / Curitiba Cult
Se você for um homem branco, heterossexual, em uma relação monogâmica, lutando por seu dia a dia, esse recado é para você. Não desconsidero seu esforço, suas lutas. As admiro. O quanto você foi capaz de construir com poucos recursos. É louvável.
Entretanto, mesmo com todas as suas dificuldades, não havia obstáculos a mais a serem superados. Desafios adicionais. A necessidade de se provar útil em uma sociedade capitalista que prioriza os provedores de família, a base da economia religiosamente estruturada, uma religião específica. Falemos do cristianismo. Das doutrinas que regem milhões de pessoas (ocidentais) em nome de algo definido como ideal.
A bíblia, é, essencialmente, uma literatura fascinante para guiar, com metáforas, humanos sedentos de um significado para sua existência. Só que, o que muitos não sabem, é que sua própria concepção foi, essencialmente, política. Tomemos como exemplo o Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, convocado pelo Papa Paulo III, para assegurar a unidade da fé e a disciplina eclesiástica.
Interesses. Apenas interesses de governantes sobre governados. Apenas a atenção que um pastor dedica às suas ovelhas: úteis, porém, descartáveis, facilmente substituídas. Só que estamos falando de humanos. Um ser humano como você, que poderia ser condenado ao inferno por não seguir doutrinas estruturadas por alguém que sangra tanto quanto você. E, sabemos, o inferno é bem ruim. Bem ruim.
O fascismo segue a mesma premissa: estabelecer uma conduta considerada ideal por uma minoria abastada que não leva em conta variações existenciais, as infinitudes de cada um em seus pensamentos. Que quer colocar, em uma cama de Procusto, todo e qualquer ser divergente. Não somos iguais. Nunca seremos. E essa é a beleza de existir. E o fascismo quer ceifar justamente isso: as diferenças que nos tornam únicos em um pedaço de rocha vagando num universo desconhecido.
Enfim, você, um homem branco, heterossexual, em uma relação monogâmica, lutando por seu dia a dia, pense que tem gente penando bem mais que você por muito menos. Que não há “coitadismo” de negro, gay, mulher e nordestino. Que você é, e sempre foi, o dono do pedaço, por menor que seja. E que o resto é, bem, o resto.
Defendendo a manutenção desse sistema, você pode estar subjugando seu filho. Sua filha. Sua mulher. Pode estar pensando que todos devem seguir um trilho definido por você, por sua criação, como se não fossem seres de histórias próprias. Como se nunca fossem protagonistas de suas vidas. Pense que você os condena a uma história escrita por você, influenciado por inúmeros fatores, que você os condena a uma projeção do que você gostaria. Não pensa no que eles gostariam. Não se importa, ou não se importava, se você estiver me acompanhando e, bem, olhando as coisas por outro ângulo.
Veja, em momento algum eu disse que você é rico, que não tem preocupações. Todos temos. Entretanto, alguns sofrem coisas que você não sofre. Você já recebeu olhares condenadores por andar de mãos dadas com sua namorada? Já teve medo de apanhar por demonstrar o afeto que sente por ela? Já foi seguido por seguranças em um shopping? Já teve crise de pânico por pensar no que pode significar você sair de casa e não mais voltar porque escolheu uma roupa diferente?
Eu já. Amigos meus já. Colegas meus já. Provavelmente alguém próximo de você também. Você só não parou para pensar que, fora do seu (relativo) conforto, pode haver estradas difíceis, mais difíceis que a sua. Com curvas perigosas. Com perigos na esquina. Para cada mulher que estiver sozinha. Para cada gay, lésbica, transexual, bissexual, negro. Para cada, bem, minoria.

Roger Waters em apresentação em Curitiba | Créditos: Fernando Favero / Curitiba Cult
Eleições finalizadas no momento de publicação desse texto. País dividido. Aí chega alguém de fora (muitos de fora) e alerta sobre o perigo do discurso sedutor de promessas vazias que solucionariam problemas profundos. A reação? Ele não! Censurado! Nem fodendo! Mito! Vaias!
Desconsiderando toda uma trajetória política, acusam Roger Waters de desconhecimento. Justo ele que, em 2012, trouxe ao Brasil a turnê “The Wall”, que é um álbum celebrado e mal interpretado. Veja, trata-se, sobretudo, de uma analogia à cegueira depositada no sistema em que estamos inseridos e cada vez mais diminuídos, destituídos de personalidade. Que, em Pink Floyd, trouxe a metáfora animal para comportamentos humanos. Que nos mostrou que somos tão vulneráveis quanto cães de rua. Que estamos perdidos.
E estamos!
Mas não podemos, de forma alguma, desconsiderar a análise de um cara que teve seu pai morto na 2ª Guerra Mundial e que sempre analisou, criticamente, os perigos da solução fácil apresentada pelo fascismo. Que sempre dedicou sua obra ao combate à subserviência. Que disse, claramente, para você sair do sistema se quiser envelhecer.
Mas quem consegue? Somos todos ovelhas.
Seja adepto de um candidato ou de outro, seja isento, todos sofreremos as consequências dessa eleição. Estamos presos a ela. Estamos na estrada. Rumo ao matadouro e defendendo quem nos conduz a ele. Seja um ou seja outro. Creio, como Waters, ser mais rápida a morte quando um deles ascender. E ele ascendeu.
E não vamos todos morrer? Tudo questão de quando. Se resistirmos, talvez mais tarde. Talvez sucumbamos mais cedo do que imaginamos. Agora, meu recado é para as minorias: resistamos! Em menor número estamos, mas, ainda assim, temos força para continuar lutando. E vamos lutar. Como sempre fizemos para que, talvez, sempre ele, o talvez, um dia, nossas futuras gerações não precisem penar tanto. Digo “tanto” porque penar sempre vamos. Uns menos que os outros, mas as batalhas são constantes. O sistema nos obriga a isso. Estamos condicionados e condicionaremos. Espero que para algo melhor, mas a própria História não se mostra como um progresso constante. É, antes, um passo à frente e dois atrás.
Que possamos ser o passo à frente se estivermos dois atrás.
Em sua passagem pelo Brasil, Waters já gerou polêmica em seu primeiro show mostrando um candidato à presidência do Brasil, eleito, que tem inúmeros exemplos de comportamentos machistas, homofóbicos e preconceituosos, como um perigo. Muitos se identificam com ele. Ou não. Ele só fala fácil. Fala o que todos entendem. Sem rodeios. É só opinião, é da boca pra fora. Entretanto, como validar o discurso de alguém que diz que vai acabar com criminalidade, com corrupção, quando, em 30 anos de carreira política, não fez absolutamente nada em relação a isso no que lhe competia?
Enfim, rolou uma comoção. Waters foi vaiado, foi aplaudido. Rolou confusão. Em seu segundo show, o que a mídia classificou como suavização foi, na verdade, mais pesado que duas aparições de “Ele não!”. Foi um final com “Nem fodendo!”. Ainda assim, ele ficou preocupado com aqueles que realmente lhe escutavam, sem diminuir, entrentanto, sua crítica política. Homenageou Mestre Moa e Marielle Franco, já mortos por uma sociedade que sempre camuflou seus desejos sanguinolentos pela manutenção de um sistema e que agora se escancara.

Créditos: Fernando Favero / Curitiba Cult
Roger Waters mandou o seguinte recado para o estádio lotado: “São 9:58. Nos disseram que não podemos falar sobre a eleição depois das 10 da noite. É lei. Temos 30 segundos. É a nossa última chance de resistir ao fascismo antes de Domingo. Ele não! São 10:00. Obedeçam a lei.”
E as reações foram bem diversas, mas não no nível assustador que temos lido por aí. Ninguém foi censurado por nada e todos berravam suas convicções. Estavam todos afinal, em um momento histórico. Estavam todos no mundo de Waters, que é cinematográfico, performático, sonoro, político, potente.
No clássico “Another brick in the wall”, vários “prisioneiros” entraram no palco, encapuzados. Dado momento da música, retiraram seus capuzes: eram crianças. Os reféns de nossa geração na grande máquina de supressão de ideias. Retiraram seus uniformes e em suas camisetas havia a mensagem: “Resista”. E resistiremos.
No set, clássicos do Pink Floyd levaram todos à insanidade. O grau de imersão do espetáculo beira o absurdo. Na tela, a velha lista de políticos considerados neofascistas com uma diferença: o último nome estava coberto com uma faixa negra. Seria essa a primeira perda? Não sei. Não sabemos ainda, mas sabemos bem quem estava lá.
Críticas ferrenhas ao Trump foram extremamente pesadas, mas o que me incomodou um pouco foi a utilização de caricaturas com características consideradas femininas inseridas sobre imagens do presidente dos EUA. Desde quando isso deveria ser considerado ofensa? Ao que parece, faltou respeito às mulheres e a tudo o que representam, o que mostra que todos ainda temos muito o que aprender.
Porco gigante sobrevoando o estado. “Permaneça humano”. “Fuck the pigs”, como dizia a placa que levantou. Fodam-se os governantes. Lutemos, juntos, por um futuro melhor. Não deixemos que o medo nos enclausure ainda mais.
Canhões de lasers pintavam o céu sobre a pista com cores e formaram um prisma. Uma luz aparentemente tátil. Ah, mesmo no intervalo, ninguém saiu de seus lugares. A tela mostrava mensagens assertivas, cuja reação da plateia era pautada pela proximidade com o contexto nacional, enquanto outras eram quase ignoradas.

Roger Waters cantando para um estádio lotado | Créditos: Fernando Favero / Curitiba Cult
Depois de algumas horas de show, as luzes se acenderam e a banda se despediu. Ovacionada. Todos entraram em transe durante tudo o que acontecia em termos visuais, em termos musicais, em termos políticos. E voltariam, daqui a pouco, cada um para seu cotidiano. Digerindo tudo.
Presidente eleito. No discurso oficial, uma oração cristã, dizendo que esta é a mão de Deus arrancando os tentáculos da esquerda. Um Brasil para todos, mas todos quem? Porque, certamente, qualquer outra religião que não essa já foi excluída. E a esquerda existe. Seria este o início de uma nova cruzada? Ainda que seu discurso tenha suavizado quando comparado ao anterior, fica o medo.
Nós, que sempre lutamos, continuaremos; alguns com medo, outros com confiança, cada um a seu modo. Seríamos oposição em qualquer resultado, então, mantenhamos a cabeça erguida e resistamos ao fascismo. Não somos iguais. Nunca seremos. E essa, meus amigos, é a beleza de existir.
Fuck the pigs. All in all it was all just bricks in the wall. Stay human. Resist!
Resistamos.
https://www.youtube.com/watch?v=qiaF4kuxJco
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