“Nossa primeira Quarta Rock foi no dia 26 de março de 2003. Na época não tinha muita regra, quem aparecia com CDs e estava a fim de tocar era bem-vindo — desde que tocasse músicas legais — e a gente tocava com um CDJ pré-histórico apoiado nas mesas do bar”. Assim Claudia Bukowski, DJ residente, nos contou a história da festa já tradicional no James Bar. “Inclusive, tinha mesas pelo bar inteiro, metade com o pessoal bebendo e jantando, a outra metade com galera jogando xadrez — sim, esse era o James em 2003”. Ainda contando sobre o início da festa, ela complementa: “Durante a noite o pessoal ia se animando e arrastando as mesas pro canto, formando uma semipista espalhada pelo bar. Acabou dando tão certo que decidimos fazer a festa toda semana — e isso já dura 13 anos”.

Claudia Bukowski, DJ residente da Quarta Rock

Claudia Bukowski, DJ residente da Quarta Rock

As coisas mudam muito nesses anos todos, claro, mas o James continua na Vicente Machado, onde desde 1998 oferece opções de festas variadas, incluindo pop, house e, claro, rock. Comemorando 13 anos de existência, quarta-feira, dia 13 de abril, foi uma noite especial com vários DJs que marcaram a história do local. “Eu costumava jogar xadrez com o Luciano, dono do bar, e fiz uma aposta: se eu ganhasse dele, eu poderia fazer uma festa na quarta-feira. Eu sempre perdia. Acho que ele deixou que eu ganhasse. Aí a gente começou a primeira Quarta Rock”, disse Rodrigo Sais, que participou da concepção. “Eu diria que não foi um grande desafio, pois desde que começou o pessoal gostou muito”, complementou, tendo tocado nos primeiros cinco anos.

Se no começo foi uma festa mais calma, hoje em dia é valorizada a agitação. “As mudanças da festa acabaram seguindo as tendências musicais — e isso gerou várias conversas do gênero ‘é rock ou não é rock’. Até hoje tem quem fale que a gente está fugindo da proposta quando rola um MGMT ou Hot Chip. Acho que o que se manteve foi a proposta da festa em sempre (tentar) se manter fiel ao rock — novo, antigo, independente da época — e trazer convidados que não costumam discotecar em festas, mas têm um gosto musical legal e querem dividir isso com o público da festa”, explicou Claudia, que salientou as diferenças entre épocas da Quarta. “No começo a gente tocava muita coisa anos 90 e começo dos anos 2000. Pixies, Pavement, Sonic Youth, Jesus & Mary Chain. Mais ou menos nessa época começaram a aparecer todas as bandas legais da ‘geração Strokes’, que foram inseridas nos sets também”, contou.

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“Tratava-se de uma reunião entre amigos”. Assim definiu Claudio Yuge, um dos fundadores da festa, quanto ao começo da Quarta Rock, dizendo que eventos como a comemoração do aniversário reúnem várias gerações de frequentadores. O local estava com muita gente nessa noite, trazendo uma energia que apenas amantes do gênero sabem criar. A promoção de double de Jack Daniels também trouxe um sabor mais forte. “Por que a festa se mantém? Porque sempre vai ter um moleque que não está na pista, está no cantinho. O pai falou que ele é um otário ou qualquer outra coisa ruim aconteceu, e uma música pode salvar sua vida. O rock faz isso”. Além disso, Yuge afirmou a iconoclastia do gênero e a influência da memória afetiva. “A essência do rock é a miséria. Não se pensa ou se questiona o mundo quando pleno. Sad songs for happy girls [músicas tristes para garotas felizes]. Você consegue transformar toda essa miséria em uma coisa positiva com o rock. A atitude é mais importante que a sonoridade. Quando estamos tocando, não ficamos presos a um gênero sonoro, pois tocamos para pessoas que querem, sei lá, ser inconsequentes por uma noite”.

"A essência do rock é a miséria. Não se pensa ou se questiona o mundo quando pleno", Claudio Yuge, Quarta Rock

“A essência do rock é a miséria. Não se pensa ou se questiona o mundo quando pleno”, Claudio Yuge, Quarta Rock

Entre uma dose (dupla) de whisky e outra, era possível observar as duas pistas. Para dar uma ideia do James de antigamente, foi montada uma estrutura na parte superior do bar, com uma discotecagem que fazia voltar no tempo, ao contrário da pista principal, que ecoava sons “mais novos”. “As pessoas vêm pela música”, afirmou Viviane “Pão”, bartender conhecida da casa que atua há mais de cinco anos cuidando da sede das pessoas. “E, na minha opinião, as pessoas preferem os clássicos”, se referindo a bandas como AC/DC, Queen, Black Sabbath e Joan Jett & the Blackhearts, que marcaram sua presença na noite.

As relações com os clientes também ultrapassam as paredes de lá, aparentemente, a exemplo da história de um casal que não ia à casa há mais de cinco anos e se conheceu na Quarta Rock. “Os dois se casaram e vieram comemorar aqui”, contou Alexandra Susin, colaboradora do local.

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Quanto ao crescimento da equipe, há sempre uma mudança. “Desde que entrei até agora, é perceptível que a maturidade do pessoal que trabalha na festa aumentou”, disse Pablo Busetti, que toca na Quarta há cerca de quatro anos, tendo sido frequentador assíduo da festa antes de começar a trabalhar nela. Claudia Bukowski finalizou: “A Quarta Rock tem um lugar muito especial na minha vida. Ela é o meu ‘divisor de águas’, a minha primeira festa como DJ residente. O ano do início da QR é exatamente o ano em que eu terminei a faculdade — e no caso é também o ano que eu comecei a “migrar” de área profissional. Treze anos depois eu estou completamente distante do que eu estudei e trabalhando com música há mais de uma década. Pra minha total e completa alegria”.

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Quer ficar de olho na programação da Quarta Rock? Confira a página oficial. Eu vivo com um copo de whisky por lá!