Mais que diurna.docx

Foto: David Mao/Unsplash

Foi quando às cinco e quarenta e três da manhã eu sentei na sacada pra escrever que me toquei, preciso quebrar meu relógio biológico. Ou pelo menos arrancar a pilha e jogar na gaveta junto dos outros relógios hibernados e já que tão hypados os anos noventa, quem sabe eu devesse voltar a usar.

Está certo que eu sempre tive uma quedinha pelas manhãs e seu ritmo mais lento, que cai super bem pra me contrabalancear. Não fosse considerado cedo demais pra cervejinha, por mim a vida seria sempre de manhãs.  

Ocorre que, uma coisa é gostar mais das manhãs, outra é acordar às cinco da matina, mesmo em final de semana, mesmo em dia de chuva, mesmo num frio lazarento, porque teu corpo parece que tá, sei lá, vivendo em outro país ou num jet lag de uma viagem não feita, num ciclo inquebrável de acordar e dormir cedão. As noites, quase nem vejo mais.  

E tem os rolês. Se já era difícil me manter acordada com meu corpo no fuso curitibano (tenho uma narcolepsia severa diagnosticada por mim mesma que me desliga, do nada, em qualquer cantinho do rolê, tendo mais fotos comprovando essa condição do que eu gostaria), nesse ritmo que ando, a tal narcolepsia se manifesta precocemente.    

Querendo reverter tudo isso e quebrar logo esse ciclo do hiper cedo, quando sento no sofá e estico as pernas sob o pufe ela deitada e com as pernas jogadas sobre as minhas digo, hoje vou dormir tarde. Ou pelo menos mais tarde, penso. Ela dá de ombros.  

Mal tinha passado a abertura do segundo episódio da série que assistíamos (daquelas curtas!), e quando olhei pro lado tava lá a garota, pescoço meio caído pro lado, boca levemente entreaberta, assim como as pálpebras em que só se via um risquinho branco de cada olho. A perna dela ainda atirada no meu colo, dei um cutucão. 

Dormi. 

Posso continuar a ver?

Não diz se acomodando melhor no sofá de olhos fechados. 

No relógio, oito e vinte e sete da noite. Oito e vinte sete!

Começo a procurar o que assistir. Acho. Desacho. Mudo. Me entedio. Ela reclama do volume e, vem aquii.

Quero ficar sentada, não quero dormir.

Vem.

Cedo. Deito do lado dela e em três segundos meu ombro se transforma na almofada. A tevê no volume mais baixo pisca meus olhos e meu cérebro, como quando mimetiza bocejos, mimetiza o sono dela.

Algo molhado escorre no meu ombro e acordo num susto. Babona. Olho no relógio, oito e cinquenta e dois. Aconteceu de novo. 

Desligo a tevê. Que bom que estamos na temporada de blocos.

Por Rai Gradowski
02/02/2023 16h34

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