Guns N’ Roses em Curitiba: toda rosa tem espinhos

foto: Guns N Roses
foto: Guns N' Roses

Falar sobre um show de uma banda de porte atemporal – que atravessa gerações – é uma tarefa delicada. A complexidade reside no fato de que, além daquilo que se vê e que se ouve durante o concerto, há inúmeros fatores influenciando a experiência; no fato de que há o peso de outros tempos além do tempo em que tudo se desenrola. Falar sobre uma apresentação de Guns N’ Roses é assim, delicado e complexo.

Nessa terça-feira (28), o grupo norte-americano, que vem acumulando uma verdadeira legião de fãs pelo mundo todo desde o fim da década de 1980, voltou a Curitiba com a turnê Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things – juntando milhares de pessoas na Pedreira Paulo Leminski três anos depois de fazer o mesmo no mesmo local.

Com um espetáculo de cerca de três horas de duração – cujo setlist abraçou dezenas de faixas próprias e covers –, não teve chuva capaz de desanimar quem acompanhava, com olhos vidrados, a presença de grandes nomes no palco. Ainda assim, toda rosa tem espinhos, e a lembrança que fica não é só flores.

Toca o nosso som aí que tu me faz feliz

A abertura ficou por conta da brasiliense Raimundos, que dispensa apresentações. Atração nas cinco datas da Guns N’ Roses no Brasil (incluindo passagens por Florianópolis, São Paulo, Cuiabá e Brasília), era nítida a sintonia do grupo com o público. Dada a empolgação visível da plateia, Digão, o frontman, não deixou de mencionar que a banda acreditava desde o início ser a escolha perfeita para essa missão.

Enquanto a seleção não deixou de fora sucessos como Reggae do Manêro, I Saw You Saying (That You Say That You Saw), A mais pedida e Mulher de fases, Digão, Marquim (guitarra), Caio Cunha (bateria) e Jean Moura (baixo) fecharam a participação com Eu quero ver o oco – e a multidão, que ia crescendo minuto a minuto, cantou do começo ao fim.

A ansiedade para o que viria a seguir? Só aumentando. E a chuva diminuindo.

Welcome to the jungle

Pouco antes das 20h, Axl Rose (voz), Slash (guitarra), Richard Fortus (guitarra), Duff McKagan (baixo), Dizzy Reed (teclados) e suas décadas de parceria, ao lado de Melissa Reese (teclados e sintetizadores) e do novato Isaac Carpenter (bateria), apareceram no palco sem cerimônia – e sem o rompante de euforia comum em públicos de grandes shows, ausência que atribuo à aparente primeira falha técnica da noite: o anúncio de início soou apenas como um eco de fundo.

De todo modo, sendo a primeira performance a clássica Welcome to the jungle, é claro que se ouviu um coro arrepiante ecoando por todos os lados da Pedreira. Afinal, lendas da música estavam ali, dando o melhor de si em um momento histórico.

E o que se viu a partir disso era a quase totalidade da galera apreciando o espetáculo, com amigos, em família, tudo embalado por faixas produzidas no decorrer de quase 40 anos de carreira da banda (das mais célebres, como Don’t Cry, Civil War, You Could be Mine e Sweet Child o’ Mine, às mais “lado B”), covers consagrados por ela (por exemplo, Live and Let Die, originalmente da Wings; Knockin’ on Heaven’s Door, Bob Dylan) e homenagens (especialmente a Ozzy Osbourne, por meio de faixas da Black Sabbath).

E o que se viu foi pessoas de todas as idades compartilhando algo único, até crianças, vibrando tanto quanto pais e mães. Mesmo com alguns poréns.

Don’t Cry

Não é novidade para ninguém: não há como ignorar problemas na voz de Axl – que desaparece com frequência, uma questão mais visível em faixas nas quais o elemento central é o vocal. Em diversas ocasiões, quase não se ouvia o que Rose cantava, exceto alguns trechos mais agudos e intensos, nos quais ele fazia um esforço maior (nem sempre sendo bem-sucedido no resultado).

Acontece que nada disso compromete, necessariamente, a experiência de estar lá. Quem vai assistir à Guns N’ Roses sabe, de certo modo, o que vai encontrar. Não é pelo desempenho do Axl de 30 anos atrás que dezenas de milhares se unem em espaços como a Paulo Leminski quando a oportunidade aparece. Se reúnem, antes, pelo que os músicos podem oferecer agora, depois de tantos anos de entrega.

Apesar da presença quase protocolar, é evidente o comprometimento do grupo com sua performance. Mesmo que longo, é um show bom, memorável. Inclusive, Axl se diverte no palco, e as pessoas se divertem na plateia. É uma troca bonita.

Tem quem diga que Rose tenta ser um cover de si e até que deveria se aposentar – ou, no mínimo, mudar seu jeito, se adaptar. Besteira. Axl é o que é – e, sendo diferente disso, aí, sim, deixaria de sê-lo.

Live and Let Die

Fortus, Reed, Reese e Carpenter brilharam cada um a seu modo. O mesmo vale para McKagan, que, aliás, protagonizou a surpresa da noite So Fine, uma adição mais que bem-vinda ao repertório.

E, Slash, bem, algo à parte. Hipnotizou com seu magnetismo característico e, a cada momento de destaque, justificou a idolatria que recebe pelo planeta. Infelizmente, foi prejudicado por algo que marcou a percepção geral da apresentação toda.

Durante November Rain, já na reta final do concerto e uma das músicas mais esperadas da noite – Axl sentado ao piano –, crescia a expectativa do solo que viria logo a seguir. Slash, então, entoou as primeiras notas.

Aí o som começou a pipocar, estourar.

Com tudo pronto para uma participação que prometia ser apoteótica, quase não se ouviu a guitarra do ícone (a não ser umas pequenas explosões espaçadas, se sobrepondo à base e aos backing vocals). E, a partir disso, as falhas técnicas se intensificaram e se espalharam pelas poucas faixas restantes.

Um retrogosto amargo fora de lugar se instalou, manchando tudo o que ditou as emoções até ali.

Absurd

Falar sobre uma apresentação de Guns N’ Roses é delicado e complexo. Quem vai assistir à banda sabe, de certo modo, o que vai encontrar. E é perceptível que não é a nostalgia apenas pela nostalgia que sustenta tanto sucesso. É a soma dela com a entrega do hoje – que, mesmo diferente do que foi, é espetacular.

Só que, apesar de sabermos da presença de espinhos na rosa, não é deles que queremos falar. A não ser que furem nossos dedos. Aí viram pauta e não tem o que fazer.

Falhas técnicas no que seria um dos momentos mais marcantes de um show desse nível? Não tem, realmente, como defender.

“Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things”. De fato.

Por Alex Franco
29/10/2025 16h19