Não são raros os shows de rock que passam pela capital paranaense. Pela cidade, já passaram, há não muito tempo, nomes como Bad Religion, David Gilmour, Blind Guardian e Nightwish. Entretanto, poucos deles trazem teatralidade ao palco. Hoje, tiro um tempo para falar de como foi o show de Alice Cooper em Curitiba.

O cara não se faz de tímido. Logo ao entrar no palco, se despe de sua capa preta e entoa as primeiras notas de Brutal Planet, iniciando uma apresentação que encanta gerações variadas. Seu público, composto por adultos que acompanham sua carreira desde a década de 70 e adolescentes, se rende.

Créditos: Fernando Favero | Curitiba Cult

Terminada a primeira música e iniciando No More Mr. Nice Guy, jogou sua bengala para a plateia, que disputou com fervor a relíquia. E isso se repetiu durante a noite. A presença de palco do músico é invejável, mas o show não se resume a ele. Em dados momentos, o destaque é dado à banda que o acompanha, com direito a solo inclusive de bateria.

Após Under My Wheels e Lost in America, chegou a vez de Poison. Não houve um na Live Curitiba, local da apresentação, que tenha ficado parado. Enquanto a música rolava, me arrepiei inteiro. Afinal, estar em meio a centenas de pessoas cantando em coro os versos da música se trata de um sentimento de pertencimento único. Todos estavam ali para idolatrar a lenda viva que estava no palco.

Alice Cooper em Curitiba. Créditos: Fernando Favero | Curitiba Cult

Entre uma troca de roupa e outra, ele encarnou personagens variados durante a noite. Passou de mágico a açougueiro. Foi decapitado ao vivo por uma guilhotina. Levou injeções de enfermeiras maníacas, esfaqueou-as. Empunhou espadas. Deixou que um monstro gigante invadisse o palco e tomasse seu lugar. Dançou com uma boneca de pano.

Mesclando o grotesco e bizarro às letras subversivas de suas músicas, presenteou aqueles que assistiam ao espetáculo com atuações únicas e características de sua carreira. Para encerrar, cantou School’s Out.

No more pencils. No more books. No more teacher’s dirty looks. Nisso, emendou trechos da música Another Brick in the Wall (Part 2), do Pink Floyd. We don’t need no education. We don’t need no thought control. No dark sarcasm in the classroom. Teachers leave them kids alone. Nada mais apropriado para uma música que exalta a rebelião ao sistema.

Créditos: Fernando Favero | Curitiba Cult

Enquanto estava preso por uma camisa de força, tomando injeções gigantes e sangrando, pareceu que sua loucura era algo compartilhado por todos. Aqueles que assistiam à apresentação de Alice Cooper em Curitiba eram todos loucos ansiando por desatar as amarras de um manicômio social. E conseguiram. Afinal, ele conhece a dor. Ele é a dor. Ele é sua dor. A dor indizível. Sua dor particular.

Nada como um show de rock memorável para traduzir sentimentos psicóticos de um público que se identifique com os conflitos trazidos por composições transgressoras. Alice Cooper é isso. Uma fuga da realidade. E que fuga deliciosa ele proporciona. Sem amarras, todos puderam ser insanos por uma noite. Uma noite a ser lembrada.

Como ele mesmo disse, somos todos veneno. “You’re all poison”. Veneno correndo pelas veias. Para finalizar, acredito que ninguém queira quebrar essas correntes. Elas acompanharão a memória de cada um que esteve lá, perpetuando o sentimento por gerações a vir. Viva Alice Cooper. Viva o sentimento imortal do rock.

Créditos: Fernando Favero | Curitiba Cult