Turnê de despedida de Gilberto Gil emociona mais de 25 mil pessoas em Curitiba

Turnê de despedida de Gilberto Gil em Curitiba. Foto: Marcelo Andrade.
Foto: Marcelo Andrade

Quando Gilberto Gil anunciou que a turnê “Tempo Rei” seria sua despedida dos palcos, toda uma expectativa foi criada sobre os shows. E o baiano foi confirmando cada vez mais datas pelo Brasil, convidando outros artistas para fazer uma participação especial diferente a cada cidade. E mesmo com esse ritmo de espera ansiosa, o cantor e compositor chegou a Curitiba com muita energia e superando expectativas. Gil se apresentou na Arena da Baixada na noite de sábado (05/07) para mais de 25 mil pessoas.

Uma turnê de despedida cria uma promessa de que grandes sucessos vão ser celebrados. Logo na chegada, na pista premium, artistas fantasiados como capas icônicas do músico, de “Gilberto Gil” (1968) a “Parabolicamará” (1991) circulavam entre o público. Como se convidassem para aquela viagem por décadas de música de um dos maiores artistas brasileiros. Com pouco atraso, o show começa. Sem muitas delongas, um vídeo de contagem regressiva com algumas fotos toma os telões laterais. Não há uma introdução ou resgate da história – o que Gil quer contar, ele conta na música.

Início

A apresentação se inicia com a bem colocada “Palco”. Ele chega animado, a voz ainda mais tímida, se aclimatando a Curitiba. A cenografia é uma das mais bonitas. Além do telão no fundo e os dois laterais, há sobre a banda duas espirais de telas, como uma tira de DNA – ou, quem sabe, uma ampulheta estilizada. Por ela, sobe e desce o tempo, com letras de música e detalhes das artes. A interação fica delicada e muito bonita.

Quando canta “Tempo Rei”, a voz de Gil vem com tudo, mostrando que a paixão pela música ainda vive – e com força – no artista de 83 anos. Ele cumprimenta o público, chama para cantar junto. E a iluminação cênica se volta para a plateia, em vários momentos, ajudando na interação entre artista e público. Mesmo sem que ele peça, a plateia por alguns momentos liga as lanternas, o que dá um efeito especial na Arena.

Gilberto Gil cantou em Curitiba neste sábado (05) na turnêde despedida Tempo Rei. Foto: Marcelo Andrade.

Gilberto Gil cantou em Curitiba neste sábado (05) na turnêde despedida Tempo Rei. Foto: Marcelo Andrade.

Os telões laterais não só transmitem as cenas do palco, como também recebem interferências interessantes. São detalhes como filtros de cor, pequenas ilustrações e interações com a cenografia central que dão dinamismo e fazem o melhor proveito da tecnologia para a experiência cênica.

Significados

Gilberto Gil mostra no repertório escolhido para a turnê de despedida sua versatilidade. Já gravou rock, reggae, MPB, baião. Aqui, rearranja algumas canções como ‘Back in Bahia”, mais balada do que rock como a original, acompanhando a banda focada em percussão e cordas. Antes de “Cálice”, um vídeo com depoimento de Chico Buarque tomou o telão, falando sobre a repressão da ditadura militar. Logo, ecoou um coro de “Sem anistia” pelo estádio. O público acompanhou Gil na canção, que trazia toda uma emoção ao cantar essa música.

Com a doçura que o caracterizou, quase se esquece da potência de várias canções dele que denunciavam a desigualdade e a violência. Mas Gilberto Gil faz questão de lembrar que sua música é celebração da vida e também protesto. Enquanto cantava, várias fotos de repressão na época da ditadura, e de pessoas desaparecidas como Rubens Paiva, apareciam no fundo.

A cada música, mudava o estilo de arte no telão. Muitas eram inspiradas por suas capas de disco, mas mais do que as reproduzir, as imagens criavam novos imaginários e significados. As bolhas de “Extra” (1983) e as colagens de “Refazenda” (1975) estão lá, em movimento e originalidade. Mas também há novidades, uma conexão com novas gerações de artistas. Caso de “Refavela” que é tocada com imagens criadas pelo artista Emerson “Saturno” Rocha e seu poderoso azul.

Presenças

Turnê de despedida de Gilberto Gil em Curitiba teve Marjorie Estiano. Foto: Marcelo Andrade.

Turnê de despedida de Gilberto Gil em Curitiba teve Marjorie Estiano. Foto: Marcelo Andrade.

Algumas presenças seriam indispensáveis para a turnê de despedida dos palcos de Gilberto Gil. Ele vai apresentando a banda aos poucos ao longo do show, e entre os músicos, estão vários familiares. Da nora ao neto, passa ainda pela filha mais velha Nara (no backing vocal) e Bem, que é um dos diretores musicais da turnê. Assim como o pai, Bem toca guitarra no show. Outro destaque é a presença de Mestrinho na sanfona, artista que ganhou o Grammy Latino e recentemente lançou um disco homenageando Dominguinhos. Mestrinho foi apadrinhado pelo lendário sanfoneiro, que era amigo de Gil e com quem gravou várias músicas.

Em todos os shows, Gil convida uma figura surpresa. Já passaram pelo palco de Marisa Monte a Anitta, o que criou uma curiosidade em quem estaria por aqui. E a presença especial ficou com um nome local de destaque: Marjorie Estiano. A atriz e cantora – que não grava há mais de dez anos, tendo se dedicado mais ao audiovisual – dividiu o vocal com ele em “Não Chore Mais”. Luz na plateia, muitos celulares ligados, a interação e a emoção de Marjorie de estar no palco com Gil tornou o momento mais especial.

“Aquele Abraço”

Em mais de duas horas de show, Gil sentou para tocar poucas músicas. No mais, estava de pé, até dançando. Trocou a guitarra por violão em “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, momento emocionante. Contou a história da música “Estrela” que era homenagem à filha de Paulo Leminski e Alice Ruiz, de quem Gil fora amigo. O clima de festa logo volta, com mais sucessos. “Realce” é um dos momentos mais animados. Gil ensaia uma despedida em “Aquele Abraço”, mas parece querer alongar o abraço ainda mais.

O bis tem “Esperando na Janela” e “Toda Menina Baiana”. Gilberto Gil sorri, canta, dança, vai e volta pelo palco, como se até ele não quisesse que essa turnê fosse uma despedida. Quando sai, a banda ainda faz sozinha “Atrás do Trio Elétrico”. Gilberto Gil é uma força da música e mostra o porquê de ser celebrado por tantas gerações em tantos gêneros musicais. “Tempo Rei” pode encerrar uma trajetória, mas assim como a visão cíclica do tempo que os povos originários têm, como a ampulheta do palco que desce, mas também sobe, e até como o “Drão” que morre para germinar, Gilberto Gil deixa o palco para se consagrar na nossa história. Sua música continuará voltando e renascendo, pela genialidade e paixão que ele dedicou a suas criações.

Por Brunow Camman
06/07/2025 12h33

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