“Torniquete”, com Marieta Severo, faz estreia mundial no Olhar de Cinema; confira crítica

Torniquete. Foto: Divulgação/Amanda Lavorato.
Foto: Divulgação/Amanda Lavorato

Todo filme guarda pequenas lacunas nas quais o espectador precisa completar para trazer significados à obra. E equilibrar o quanto se revela e o quanto se esconde não é tarefa fácil. O filme “Torniquete”, que teve sua estreia mundial durante o Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba nesta sábado (14) na Sala Claro – MON, busca sua força justamente nas lacunas. “Torniquete” é o primeiro longa-metragem dirigido por Ana Catarina Lugarini, traz Marieta Severo no elenco e foi rodado em Curitiba.

História

Três gerações de mulheres estão morando juntas pela primeira vez na mesma casa, em “Torniquete”. Marieta Severo é Lucinda, avó que tem uma distribuidora de gás funcionando na casa e recebe a filha, Sonia (Renata Grazzini), e a neta, Amanda (Sali Cimi). A relação já difícil entre elas é complicada por um assalto, cuja violência deixa uma marca física no rosto da neta e destrincha outras dores em toda a família.

Silêncio

O longa-metragem é cheio de silêncio. A relação conflituosa do trio de protagonistas é sustentado por olhares e gestos. A diretora revelou, em debate na sessão do dia seguinte à estreia, o quanto a questão do corpo é essencial para o filme. Por horas, na violência e nas feridas sendo abertas e nem sempre fechadas. Em outros momentos, pelo embrutecimento dos movimentos e no afastamento entre as personagens. O ritmo do filme também é propositalmente lento, ajudando a perceber melhor essas nuances de atuação.

As atuações são ótimas. A começar por Marieta Severo, “Torniquete” tem uma ótima escolha de elenco. A atriz consegue transmitir raiva, angústia e uma contida doçura, tudo em uma só cena. E Marieta ajuda a nortear as colegas, em especial o elenco mais novo. Sali também entrega grandes performances. Renata tem menos tempo de tela, e ainda menos interações – coisa que poderia trazer mais nuances das relações entre elas.

Três mulheres

A equipe da produção era majoritariamente formada por mulheres, e com um tema diretamente ligado a vivências femininas, isso ajuda no resultado final. Das escolhas de direção de arte ao enquadramento, há um toque de atenção a cada detalhe para registrar aquelas mulheres. São personagens vivas e cheias de sentimentos reprimidos. O filme quase catártico mostra a recusa em serem vítimas ao mesmo tempo em que revela a angústia que sentem ao não conseguirem se comunicar.

A relação entre avó e neta vai sendo construída em cenas marcantes, bem emocionais. As duas no jardim ou a neta ensinando a avó a andar de bicicleta, e a avó ensinando a mais nova a andar de moto, dão leveza entre momentos tensos. Sonia vai colocando grades na casa da mãe, trazendo de volta o peso da violência externa que agride mulheres onde deveriam se sentir seguras.

Essa dinâmica cheia de metáforas pede um olhar atento do espectador. “Torniquete” tem menos de uma hora e meia de duração, permeado por silêncios e símbolos. Poderia ter mais tempo de tela, mesmo que não fosse para trazer mais diálogos – estes são pouquíssimos, mas muito bem colocados. Traz personagens interessantes e temas urgentes conseguindo ser tratados de forma sincera sem ser exageradamente expositiva. O filme tem um grande trunfo nas mãos, apesar de deixar lacunas demais entre seus silêncios.

Por Brunow Camman
16/06/2025 09h21

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