Eu e um amigo, o Will <3, temos uma brincadeira interna bastante curiosa — e tentem não nos tomar por retardados se for possível. Em linhas gerais, normalmente brincamos de conversar utilizando apenas frases com ditados populares. Funciona mais ou menos assim:

– Migo, quem com ferro fere, com ferro será ferido.

– É, mas comigo é olho por olho e dente por dente mesmo! Dá nada!

Basta que um de nós dois utilize um ditado sem querer que o outro é obrigado a continuar, caso contrário, a amizade acaba (?).

Hoje, pensando nisso no ônibus — vide o nome desta coluna desequilibrada que eu mantenho —, percebi o quanto os ditados populares, por vezes, são equivocados ou, no mínimo, dúbios.

Quando eu assisti ao filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (inclusive, tenho um quadro fofura dela que eu ganhei de outros dois grandes amigos), fiquei com uma cena na cabeça. A amiga da Amélie testa o boy que curte a protagonista, fazendo com que ele complete os ditados que ela começa a dizer, por exemplo: “Àgua mole em pedra dura…”, daí ele precisa completar.

O rapaz acerta todos, e a personagem diz para ele: “Minha família afirma que quem sabe os ditados populares não é de todo ruim”. Na época, achei fofo, hoje achei tosco (amo rimar!).

Pensando nisso, listei alguns ditados que, sério, me incomodam demais, e, o pior, não só a mim! Possivelmente Freud se sacode no caixão quando escuta pessoas tomando tais máximas populares como verdade. Então, para ilustrar o que eu quero dizer, segue:

“Não adianta chorar o leite derramado”

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Foto: divulgação.

Este ditado, que também é título do texto que você está lendo, é um dos que mais me incomoda. Gente, adianta chorar o leite derramado sim! Fez burrada? Alguém morreu? Está arrependido do que fez? Chore o leite derramado!

Freud chama isso de “sofrer o luto”. Nós precisamos passar por esta fase, caso contrário, estaremos recalcando os sofrimentos – termo cunhado pela psicanálise e que significa “mandar para o inconsciente aquilo que não é assimilado pelo nosso complexo consciente de representações”.

Parece uma boa ideia colocar um sofrimento em um local inconsciente, ou seja, que não temos consciência? Sim, parece! MAS NÃO É! Isso porque todos estes recalcamentos voltam como manifestações do inconsciente, ou sintomas da manifestação do inconsciente, que podem ser vários, tais como: sonhos, atos falhos, lapsos de linguagem e até mesmo somatizações (problemas físicos desencadeados por estas representações que não foram assimiladas). E não queremos isso, né?

“Quem tudo quer nada tem”

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Foto: divulgação.

Gente, sem conformismo, né? Parem de repetir estas coisas! Quer tudo? Corra atrás! Você pode conseguir sim! Será fácil? Óbvio que não, mas daí já é querer demais. No entanto, não se esqueça, se você não conseguir tudo o que quer, você possivelmente sofrerá, ou seja, você terá de passar pelo luto (chorar o leite derramado) para não deixar o seu inconsciente cheio de recalquezinhos doentios, ok?

“Quem não chora não mama”

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Foto: divulgação.

Mama sim! Você pode encontrar inúmeras maneiras de conseguir o que você quer. Muitos caminhos levam ao mesmo destino, ou seja, nada de se humilhar ou ficar desesperado. Apenas trace estratégias viáveis e tente “mamar” no que você quer (isso soou pornográfico, né?). Sabe quando dizem que existem várias maneiras de se dizer a mesma coisa? Então, é basicamente isso. Existem trezentos tipos diferentes de atitudes que podem te fazer conseguir o que você quer, basta você se mexer.

“Em terra de cego, quem tem olho é rei”

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Foto: divulgação.

Alôu, mundo! Em terra de cego, quem tem olho minimamente seria assassinado para ter o olho roubado. Ou, ainda, seria considerado uma aberração por ser diferente, tal qual os negros e as pessoas LGBT foram (e ainda são, que bad) considerados. A sua característica diferente é maravilhosa, mas, não se engane, ela não será idolatrada sempre, muito pelo contrário.

Em terra de cego, se for do interesse dos cegos que você continue vivo e enxergando, você será rei. Caso contrário, guilhotina para você, baby! Aham, o sistema é cruel.

Tá, vai parecer bem clichê, mas agora que já listei as minhas insatisfações com os ditados populares, encerrarei este texto com um deles, e que me irrita muito por sinal. Entretanto, o utilizarei para te mostrar o contrário e convidar você a ter uma visão dialética das coisas. Lá vai:

“Quanto mais alta a árvore, maior o tombo”

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Foto: divulgação.

Migues, please, quanto mais alta a árvore, maior é o seu campo de visão, mais linda é a paisagem, e mais longe de ataques terrestres você estará. O que eu quero dizer é: antes de pensar na dificuldade, pense nas vantagens. Suba, suba bem alto e, claro, leve quem você puder junto. Se você fizer isso conscientemente e sem ferir os direitos humanos, acredite, não existirá tombo algum. Estamos conversados?

Se sim, tenha uma ótima quarta-feira. Nos falamos na próxima semana. =)