Jabuticaba, não tão já.docx

Jabuticaba. Foto: Canva.
Foto: Canva

— Tem gosto de quê? Tipo amarra? Detesto quando amarra— pergunto pra ela, sinal fechando e trânsito no anda e não anda da Alfredo Bufren. Acabei de confirmar a rega da jabuticabeira de ontem e anteontem. De hoje, não. Não ainda.

Há pouco mais de um mês a gente se emocionou no galpão de plantas do Ceasa. Eu poderia dizer que foi pisar lá dentro que o cheiro de jasmins e lírios e rosas e temperos me invadiu as narinas causando um conforto descomunal. Mas a verdade é que meu olfato é uma grande porcaria, então foi pro coloridão esverdeado daquela flora toda que meus neurônios piscaram hiperestimulados.

            Ela ainda numa segunda tenda com cactos e eu já tinha dado quatro voltas pelo galpão, alvoroçada com o tumulto de plantas. Então, comentou dos cactos gigantes, que tavam um preço bem bacana. Mas a gente já tem uma criação de cactos e considerando que às vezes eu dou uns tropeços, melhor não aumentar o número de espinhos.

Puxei ela pelo braço guiando até uma tenda na outra ponta e falei que íamos levar uma árvore.

Na tenda das árvores e arbustos e perguntei pro piá o que dava pra manter numa varanda. Ele mostrou uma buganvília bem da despetalada e as jabuticabeiras. Daí mostrou uma plantada num plástico preto e disse:

—  Essa aqui, oh, dois anos dá jabuticaba. E bem docinha, é. Cês gostam?

 As duas responderam não. Mas isso não fazia a menor diferença. Até se fosse uma árvore de cebolas eu estaria empolgada. Era uma árvore, afinal. Resultado: trouxemos a jabuticabeira pro apê.

O sinal ainda fechado e ela me olha e faz toda uma cara e pergunta se eu nunca comi jabuticaba.

Eu fico pensando e pensando e tentando lembrar das prováveis bilhões de vezes que me deparei com aquelas frutinhas pequenas arroxeadas na minha frente e disse não, valeu, porque é meio que meu modus operandi, e concluo que não, nunca comi jabuticaba.

            — Abriu — aponta o dedo pra frente fazendo eu voltar o olhar pro trânsito. —A fruta, assim, eu também não. Mas — aí enfia a mão dentro da bolsa e tira um gloss sabor jabuticaba de dentro — o gosto você sabe.

            Eu costeio o carro antes dos pontos de ônibus. Damos um beijo — meio doce, meio azedinho, bastante roxo. O ônibus atrás de nós mete a mão na buzina. Ela desce limpando o contorno da boca com o dedão.  Daqui dois anos vem a fruta.

Por Rai Gradowski
12/06/2025 16h20

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