Humor em movimento: palhaçaria em destaque no Festival de Curitiba

Coletiva de imprensa no Festival de Curitiba. Foto: Annelize Tozetto
Foto: Annelize Tozetto

A arte do circo tem espaço – e muito! – no Festival de Curitiba. Na coletiva de imprensa de quarta-feira (08/04), diversos grupos que trazem essa linha de arte destacaram as várias possibilidades das artes circenses. A programação do MishMash é um ponto alto no evento, com ingressos concorridos para assistir um espetáculo que mistura vários artistas e muita surpresa. A manhã ainda contou com Herson Capri e Natália do Vale, que divulgaram a peça “A Sabedoria dos Pais”, com texto de Miguel Falabella.

“{Fé}sta”

A palhaçaria negra é representada pelo Coletivo Prot{agô}nistas, que traz a montagem de “{Fé}sta”. O espetáculo foi pensado em quatro eixos: dança, circo, música e palhaçaria. Aliados a isso, estão quatro temas: morte, nascimento, união e fé. Mas tudo isso é visitado de forma sensorial, enquanto malabaristas, músicos e atores se misturam na construção de uma narrativa inovadora. “O circo sempre abarcou a música, o teatro, a narrativa; o circo tem dramaturgia e é uma arte completa”, explicou o diretor musical Melvin Santhana.

A fé, diferente de se pensar em religião, é a crença no encantamento que acontece quando as pessoas se reúnem em torno de um propósito – no caso, a celebração da arte. Mas as vivências negras e a herança de religiões de matriz africana fazem parte desse movimento. “O texto tem palavras como ‘axé’ que remetem a essas religiões, o que é uma oportunidade para as pessoas aprenderem algo novo”, comentou a musicista Mariana Per.

MishMash

Os curadores do MishMash, Rafael Barreiros (o Palhaço Alípio) e Pedro de Freitas, e o diretor artístico Ricardo Nolasco, comentaram sobre o espetáculo. Tradicional do Festival de Curitiba, a cada ano a montagem se renova, trazendo diferentes talentos em um show de variedades. Esse ano tem referências das feiras livres como um “ancestral” do circo. “Ela é uma miscelânea onde cabe tudo”, pontuou Pedro.

O curador destacou uma atração que queria trazer há tempos e finalmente vai acontecer: apresentação de tambores japoneses com o Wakaba Taiko. Acontecendo na Pedreira Paulo Leminski, a equipe valorizou números aéreos, aproveitando o espaço. Assim, a cada edição o MishMash se renova. “Nós estamos nos aventurando com o público”, destacou Ricardo.

Magiluth

O grupo recifense Magiluth comemora 21 anos com o espetáculo “Édipo REC”, na quarta parceria com o diretor Luis Fernando Marques, o Lubi. Os artistas pensaram em uma peça que fosse uma festa – e buscaram uma das maiores tragédias teatrais para isso, “Édipo Rei”. Mas novos toques, como influência do cinema (em especial o filme “Oedipus Rex” de Pasolini) e um diálogo com o mundo atual, pelas redes sociais, dão novas leituras ao clássico. “É uma tragédia de milhares de anos de masculinidade tóxica”, comenta o ator Giordano Castro.

A trupe destacou a importância da arte pernambucana no Brasil, e comentou o nome: “REC é de Recife e é ‘gravando’”, apontou Mário Sergio Cabral. Discutiram como a arte de Pernambuco é vista como regional, mas que é preciso valorizar o local sem esquecer que isso também é nacional, também é identidade brasileira.

“A Sabedoria dos Pais”

Natália do Vale e Herson Capri comentaram sobre a bem-humorada “A Sabedoria dos Pais”, peça escrita especialmente para eles por Miguel Falabella. Na trama, um casal divorciado depois de 35 anos de casamento se vê com novos problemas, mas também novas possibilidades. Ainda se tratam com muito respeito, mas buscam outros movimentos na vida, levando a discussões sobre o trabalho e a busca por um novo amor na terceira idade. Capri apontou, por exemplo, a discussão sobre misoginia, em seu personagem que, mesmo aparentando ser bem aberto, ainda lida com suas limitações ao entender a nova liberdade da ex-mulher.

Os artistas falaram sobre o trabalho em TV, e como é diferente trabalhar em novelas. “O teatro tem isso de profundo”, Natália destacou, apontando sobre a maneira como os temas – entre eles, o etarismo – ressoa no público. E também a maneira dos dois improvisarem a cada sessão, porque – diferente das novelas – o teatro é vivo, e o texto pode ir se adaptando e se renovando conforme as reações de quem assiste. “O lugar do ator é o teatro”, afirmou a atriz.

“Como Um Palhaço – Like a Clown”

Separados por um oceano, mas ligados pelo humor, a brasileira Helena Bittencourt e o holandês Goos Meeuwsen criaram o espetáculo “Como Um Palhaço – Like a Clown”. Montada como uma palestra cômica, a peça tenta entender o que é ou não é a arte da palhaçaria, e como o humor é entendido ao longo dos tempos e dos países. “Tentamos organizar uma coisa que tem uma natureza tão caótica”, Helena explicou.

A peça já foi apresentada na Holanda, e a dupla comentou sobre as pequenas adaptações para o país. Foram trocadas algumas referências, mas há muito do humor – especialmente físico – que se mantém. “Há temas que são entendidos em todo o mundo, e estamos longe de esgotar esses assuntos”, finalizou.

Por Brunow Camman
08/04/2026 20h35

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