“Foi realmente uma apoteose. Uma cumplicidade com o público”, afirma Vera Holtz sobre a plateia de Curitiba; confira a entrevista completa

Peça Ficções. Foto: Flavia Canavarro/divulgação
Foto: Flavia Canavarro/divulgação

Curitiba voltou a provar por que ocupa um lugar central no mapa do teatro brasileiro. No último final de semana, as duas sessões de “Ficções” lotaram o Teatro Guaíra, confirmando a força do espetáculo estrelado por Vera Holtz e pelo italiano Federico Puppi.

A montagem passou pela terceira vez na cidade e encontrou um público atento, participativo e disposto a mergulhar em uma experiência cômica e reflexiva.

Relevância de Curitiba

A atriz conta que, em 2022, a turnê começou no Rio de Janeiro, seguiu para Minas Gerais e desembarcou na capital paranaense, no Festival de Curitiba. “A gente foi no Rio de Janeiro, fizemos um final de semana em Juiz de Fora, depois Belo Horizonte, e todos os teatros pequenos” Em outro momento, ela reforça: “Nós saímos do nosso ‘templozinho’, nosso teatro, para 2.100 e poucas pessoas no Festival, absolutamente treinadas para ver teatro, apaixonadas por teatro.

A primeira passagem por Curitiba marcou, segundo eles, uma virada de chave na dimensão do espetáculo. A recepção calorosa da plateia os fez compreender a grandeza do espetáculo. “Foi realmente uma apoteose. Uma cumplicidade com o público que nos mostrou, ‘vai dar certo, a peça tem vida, é vibrante, é importante’. Então, a gente saiu com esse sentimento aqui da época”, afirma Vera.

A relação da atriz com a cidade é antiga. Ela relembra que sua estreia na capital paranaense foi com a peça Rasga Coração”, em 1979. Foi a primeira peça pós-ditadura militar que não precisou passar pela censura, permitindo maior liberdade para artistas e público. A montagem, de cunho político e marcada pela resistência, abriu um novo momento histórico. Ela conta que o convite veio diretamente do governo da cidade para estrear a turnê nacional do espetáculo. “Olha que coisa chique estrear nacionalmente uma peça”, comenta, ao lembrar do impacto da montagem no Guairinha.

Vera Holtz em "Rasga Coração". Foto: reprodução Facebook Temporal Editora

Vera Holtz em “Rasga Coração”. Foto: reprodução Facebook Temporal Editora

De acordo com Federico, existia uma tradição de iniciar turnês nacionais por Curitiba, e embora ele reconheça que esse costume tenha perdido força, destaca que a cidade mantém relevância por causa do Festival de Curitiba e do público.

O italiano, que desembarcou na capital paranaense entre 2011 e 2012, conta as histórias que ouviu nos bastidores sobre como a capital consolidou essa imagem de cidade estratégica dentro da chamada “geografia da cultura”, conceito que, segundo Vera, já era discutido na época de Jaime Lerner.

“Se a ficção é a nossa realidade, ela é real”

Em cena, “Ficções” amplia esse diálogo com o público. O espetáculo nasce da obra “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade“, do autor Yuval Harari , com reflexões filosóficas e contemporâneas, ao mesmo tempo que resgata o tom cômico ao longo das falas.

De cunho filosófico e contemporâneo, o espetáculo transforma reflexões em uma experiência acessível ao incorporar um tom cômico que atravessa as falas e cria respiros de leveza. O humor surge como ferramenta de aproximação: provoca riso, mas também conduz o público a questionar as próprias certezas.

Ambos os artistas afirmam que o espetáculo não entrega respostas prontas, mas levanta dúvidas e provoca reflexão. “Não tem como você olhar para o homem já criticando ele. A gente observa. A nossa obra também é uma obra que levanta dúvidas. Nós não damos respostas” diz Vera. Federico complementa que o espetáculo acompanha as transformações do mundo e observa que “o surgimento de novas ficções, a queda de outras, em uma era em que a narrativa virou o novo grande deus”.

Formato não convencional

Apesar da densidade do tema, a montagem encontra leveza na forma. Vera define o encontro como uma jam session: performance coletiva que se transforma conforme a plateia. Já Federico enxerga o trabalho como uma grande colaboração: “’Ficções’ é um balé total. É um balé no palco, é um balé do palco com a plateia.” A dinâmica entre palavra, som e corpo cria uma experiência viva, que cresce junto com o público.

Em Curitiba, com sessões lotadas e plateia engajada, “Ficções” reafirmou sua potência. A cidade, que já foi ponto de partida de turnês históricas e palco de estreias emblemáticas, ocupa o centro da cena. Entre risos, silêncios atentos e aplausos, o espetáculo mostrou que discutir as narrativas que sustentam o mundo pode ser, ao mesmo tempo, profundo, atual e vibrante.

Por Yasmin Luz
02/03/2026 15h03

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