Doses homeopáticas de contração muscular. docx

foto: Canva

O link veio pelo whats e as gurias se empolgaram. Convite pra um app de competição de quem fazia mais exercício, e o prêmio: nada. Eu, uma pessoa zero competitiva mas animada pra qualquer coisa, me cadastrei, coloquei uma foto tosca de perfil e por cinco dias, esqueci da tal disputa.

Até que certa manhã o assunto voltou no whats. Não lembro quem (mentira, lembro, mas não vou dizer) erguia alguma polêmica pesada sobre os critérios da disputa ao pódio. Acessei o app e quatro amigas marcavam checkins endorfinados em academias, parques, treinos de corrida, cardio, bracitchos, pernocas, dança, tênis, beach tênis e, largada no tatame do cansaço com uma amiga que não tinha sequer arrumado o nome e fotinho no cadastro, eu.

Naquele momento, preciso confessar, me senti derrotada. Tirando a ioga que mais vezes do que eu gostaria morfeu me proíbe de praticar, ou o tênis nas raríssimas partidas que as migues não dão migué, eu, logo eu que me mexo tanto, andava parada.

Tentei um gole d’água pra encarar meu fracasso e a garrafa vazia me levou até a cozinha em passos arrastados. Quase cogitava descer pra academia do prédio e mudar de vez minha vida sedentária, até que disposta em frente ao filtro recordei de um antigo método.

Meu programa de doses homeopáticas e constantes de exercício. E não me venha com não funciona. Entre o zero e isso, tem um ganho. Então já tá valendo. Qualquer coisa é melhor que zero.

Coloquei a garrafinha embaixo do filtro e apertei pra água gelada. Enquanto o líquido escorria batendo no metal e mudando o som conforme a garrafa ia enchendo, eu fazia agachamento freneticamente — fechei vinte três até completar a garrafa. Dei um golão que escorreu pelo queixo e ainda arrematei com mais sete agachamentos enquanto completava de novo a garrafinha.

Na volta pro escritório, fiz o trajeto curto correndo no lugar enquanto as cachorras latiam me circulando. Antes de sentar em frente ao computador, mandei mais dez agachamentos. E assim passei o dia.

Liquidificador batendo suco de laranja: abdominais. Micro-ondas esquentando água pros cafés: polichinelos. Locomoção entre os cômodos do apê, no mínimo uma marcha atlética. Até durante o banho, enquanto lavava o cabelo fiquei no levantamento de calcanhar fortalecendo a panturrilha. De noite, enquanto decidia o que assistir: prancha.

O resultado é que acordei no dia seguinte com aquela dor de vitória nas coxas. E aí eu decidi que meu método merecia ser contabilizado também no app.

Sabendo que causaria polêmica na briga pelo prêmio inexistente, apenas descrevi genericamente, dei uns tapas nas bochechas, encharquei a cara na torneira fazendo questão de molhar o comecinho do cabelo na testa e com uma expressão cansada com a língua pra fora mandei uma foto.

Desde então eu lidero a competição e vivo assim, em constante funcional.

Por Rai Gradowski
24/04/2025 17h14

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