Diretor de primeiro filme com protagonista surda, que estreia no Olhar de Cinema: “arte surda é viva, pulsante e em ascensão”

Nem Toda História de Amor Acaba em Morte. Foto: Beija Flor Filmes.
Foto: Beija Flor Filmes

O cinema paranaense não só marca presença no Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, como também traz um pioneirismo nas produções. Nesta segunda-feira (16/06), acontece a estreia de “Nem Toda História de Amor Acaba em Morte”. O filme totalmente rodado em Curitiba traz a primeira protagonista surda do cinema nacional. E o diretor e roteirista Bruno Costa mostra como esse é um passo dentro de um movimento de representatividade. Ele conversou com exclusividade com o Curitiba Cult sobre o longa.

Sinopse

A professora de educação infantil Sol (Chiris Gomes) redescobre o amor com Lola (Gabriela Grigolom), mãe solo de uma das alunas. A relação bilíngue, entre o português e a Libras, transforma não só suas vidas, como a do ex-marido (Octavio Camargo). O filme transporta a ternura e a dificuldade das relações humanas. “Nem Toda História de Amor Acaba em Morte” foi 100% filmado na capital paranaense, com produção da Beija Flor Filmes, também da cidade. Recentemente, venceu os prêmios de Melhor Ator e de Melhor Filme pelo Júri Popular no Cine PE – Festival Audiovisual de Pernambuco.

“Nem Toda História de Amor Acaba em Morte” é um dos primeiros filmes nacionais com protagonismo de uma personagem surda, certo? O que isso representa para a acessibilidade na cultura brasileira?

‘Nem toda história’ é o primeiro filme com uma protagonista surda, e além de acessibilidade o filme vai muito além, é sobre representatividade. Além de Gabriela Grigolom temos mais 30 surdos entre atores e figurantes. O mais bonito do filme é ver essa comunidade sentindo-se representada e atuando ativamente para mostrar a sua história. ‘Nem Toda’ faz parte de um movimento maior, a arte surda é viva, pulsante e em ascensão. Além do cinema existem obras em teatro, performance; há a Mostra Surda de teatro dentro do festival de teatro Curitiba, e outras iniciadas como o canto da Ilíada interpretada por Jônatas Medeiros em Libras, algo totalmente inédito.

Como tem sido a recepção do público ao filme que traz português e libras em cena? Como a comunidade surda tem reagido ao longa?

Acabamos de estrear no Cine PE, e a recepção do público não poderia ter sido melhor. A comunidade surda de Recife compareceu em peso, tornando toda a experiência ainda mais bonita. O filme foi bastante aplaudido ao final da sessão, e em Libras. Ao final do festival saímos com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular, o que diz muito sobre o poder de comunicação do filme com as pessoas. Octávio Camargo também recebeu o prêmio de Melhor Ator.

Como foi produzir o filme usando duas línguas? Como foi preparar a equipe e organizar as gravações?

Ter personagens surdas no elenco trouxe um grande aprendizado para toda a equipe. Buscamos todos aprender ao menos o básico da Língua Brasileira de Sinais para podermos nos comunicar. Tivemos intérpretes no set de filmagem, tivemos surdos também na equipe, além do elenco. Tudo foi muito novo para nós, e muito estimulante, lembro da leitura de roteiro com toda a equipe, interpretada em Libras por Jônatas Medeiros, foi um dia muito especial.

O que mais te atraiu para tratar de assuntos como a surdez?

Na grande maioria das vezes pessoas com algum tipo de deficiência são retratadas como vítimas, coitadinhas, e com trajetórias trágicas. Para mim era importante tratar da personagem surda sem cair nesse clichê, e sim vivendo suas questões, enfrentando o dia a dia como todas as outras.

O filme ainda discute questões de gênero e sexualidade. Como é trazer essas diferentes discussões para um filme, lidando com temas atuais e necessários?

Para mim é muito natural, em todos os meus trabalhos procuro falar de temas que sejam importantes, que gerem alguma reflexão, que faça as pessoas pensarem. Faço isso seja na comédia, drama ou ação. Nesse filme o desejo era falar dessa descoberta sexual da Sol, uma mulher de 50 anos, e junto dela surgem sub temas como etarismo, machismo e preconceito.

Você também assina o roteiro. Qual a diferença na hora de escrever um roteiro pensando em centralizar a personagem surda? E como é levar esse roteiro para o filme?

A grande diferença nesse filme foi que tive muita colaboração da Gabi Grigolom, nossa atriz surda e do Jônatas Medeiros, intérprete de Libras. Era muito importante ter esse olhar na comunidade surda dentro da história, para que ela se sentisse de fato representada.

SERVIÇO – 14º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba

Quando: de 11 a 19 de julho de 2025

Onde: exibições na Ópera de Arame, Museu Oscar Niemeyer, Cine Passeio, Cinemateca de Curitiba, Cine Guarani e Teatro da Vila

Quanto: evento contará com sessões gratuitas e sessões com ingressos a R$ 8 (meia) e R$ 16 (inteira)

Ingressos: pré-venda a partir de 16 de maio no site

Informações: no site do Olhar de Cinema

O Olhar de Cinema tem desconto para assinantes Clube Cult.

Por Brunow Camman
16/06/2025 14h32

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