Crítica: “Virgínia e Adelaide” resgata importantes mulheres na história brasileira

Virgínia e Adelaide. Foto: Fábio Rebelo.
Foto: Fábio Rebelo

Duas personalidades marcantes na história brasileira são resgatadas no novo filme “Virgínia e Adelaide”. O longa-metragem tem roteiro de Jorge Furtado, que divide a direção com Yasmin Thainá. A trama ficcionaliza a relação entre Virgínia Bicudo e Adelaide Koch, que introduziram a psicanálise no Brasil. O filme chega aos cinemas nacionais em 08 de maio.

Na primeira cena, já somos apresentados ao clima do longa, que se afasta do realismo. Virgínia Bicudo (Vanessa Rodrigues) aparece sobre uma projeção de cena antiga de trabalhadores. Essa mescla entre imagens reais do passado, criações artísticas como ilustrações e cenas filmadas das atrizes é uma constante e tem seus bons momentos. Virgínia chega à casa de Adelaide (Sophie Charlotte), a parte mais realista do filme, para iniciar o que seriam anos de atendimento e amizade.

Tratamento

Virgínia é uma mulher negra, pioneira em estudos sobre racismo no país. Ela acaba se tornando a primeira paciente de Adelaide desde que ela, médica e psicanalista judia, chegou a São Paulo (SP) fugindo da Alemanha nazista. Essa relação entre o racismo sofrido por judeus com a ascensão do nazismo na Europa e com o preconceito sofrido por negros no Brasil percorre toda a trama. Em diversos momentos, é o ponto mais forte.

Fugindo da narrativa tradicional, “Virgínia e Adelaide” se permite momentos mais inventivos. Cenários mudam, ganham uma poética interessante, especialmente quando as personagens divagam sobre seus passados. Saindo do âmbito pessoal, também revelam detalhes mais assertivos de momentos históricos, como explicando a Noite dos Cristais, um massacre antissemita na Alemanha.

Anacronismos também aparecem, desde escolhas em figurino a informações mais acadêmicas, lançadas pelas atrizes. Muitas vezes funcionam, outras nem tanto. Algumas cenas caem no didatismo, quando perdem a poética. Essa quebra pode interromper o fluxo, já mais lento, do filme.

Atrizes

Por conter apenas as duas atrizes em cena, é preciso de um bom trabalho de direção. E as duas alcançam uma boa performance. O sotaque carregado de Sophie Charlotte por vezes titubeia, especialmente em algumas cenas do final, mas é fácil acostumar com essa escolha. O trabalho cênico de Sophie e Vanessa é intenso e o jogo entre as atrizes potencializa as cenas. Os diálogos, que no começo parecem diretos demais, até pouco fluidos, ganham mais dinamismo depois. A relação de médica e paciente que evolui para colegas de profissão e amigas é bem dezenvolvida.

O roteiro é bem escrito e consegue dar espaço para as duas personagens. Porém, foca mais nas conversas entre elas e nas relações raciais que acaba deixando em segundo plano o desenvolvimento da psicanálise no Brasil. Está lá, mas é secundário em relação à trama. Assim, não chega a ser uma cinebiografia, o que pode surpreender alguns espectadores. Mas “Virgínia e Adelaide” está mais preocupado em discutir tensões raciais e ascensão de governos ditatoriais do que ser biográfico – o que traz um poder para o momento de seu lançamento.

Por Brunow Camman
29/04/2025 09h00

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