Crítica: “Sempre Garotas” e as complexas relações de gênero na adolescência

Filme Sempre Garotas. Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação

Depois de ganhar destaque em circuitos de cinema pelo mundo, o filme indiano “Sempre Garotas” chega aos cinemas brasileiros. O drama de amadurecimento com questões de gênero como pano de fundo é a estreia da diretora Shuchi Talati. O longa-metragem venceu o Prêmio Especial do Júri de Melhor Atriz e o Prêmio de Público de Melhor Filme no Festival de Sundance em 2024. A estreia nacional acontece hoje (01/05), e a produção pode ser assistida no Cine Passeio.

História

Mira é a aluna exemplar do internato misto ao pé do Himalaia. Exemplo de disciplina e responsabilidade, a jovem fica responsável por cuidar dos colegas, servindo como ponte entre os alunos e professores. Quando ela se apaixona pelo garoto Sri, a situação pode mudar. O despertar sexual a coloca em conflito com as expectativas dos adultos e dos colegas.

Preeti Panigrahi venceu o Sundance de Melhor atriz como Mira, e sua atuação é a força que movimenta o filme. Bem equilibrada, sua interpretação consegue demonstrar os conflitos típicos da adolescência e a irritação com a falta de ação dos adultos. A mãe de Mira também é muito bem interpretada por Kani Kusruti, uma personagem complexa e interessante. Kesav Binoy Kiron completa o trio principal como Sri, um garoto que chega exemplar e, aos poucos, revela suas camadas mais sombrias.

Machismo

Adicionado aos dramas da adolescência, Mira precisa lidar com as estruturas sociais que privilegiam os colegas homens. Mesmo trazendo relatos e provas de que os garotos não apenas incomodam, mas também assediam as garotas, sua professora pouco faz. A represália é maior contra as garotas que usam o uniforme do tamanho inadequado. E quando uma atitude é tomada, os amigos se viram contra Mira.

Nesse impasse, a jovem desconta na mãe, que relembra a adolescência bem mais controlada que teve. A mãe parece querer viver sua adolescência de novo, criando um laço inesperado com Sri. Isso irrita Mira, que não sabe como lidar com a única coisa boa que conseguia ver no momento: seu namoro.

O relacionamento entre mãe e filha é apresentado de forma leve e interessante, vai ganhando camadas ao longo do filme. Também não entendemos as atitudes da mãe assim como Mira, evidenciando a confusão da protagonista de “Sempre Garotas”. Essa relação também dá um panorama, ainda que fictício, das evoluções, mesmo pequenas, das estruturas de gênero na Índia.

Equilíbrio

O roteiro traz um equilíbrio entre essas dinâmicas sociais e como afetam as relações familiares. Também traz cenas bonitas e simples, mas eficazes, numa imersão naquela realidade. “Sempre Garotas” consegue trazer um romance dramático adolescente sem ignorar a complexidade do momento nem do contexto social. É um filme bonito e rico, que guarda na simplicidade seu maior trunfo para discutir temas delicados de forma emocional.

Por Brunow Camman
01/05/2025 08h00

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