Crítica: “Manas” traz tema sensível com ótimas atuações

Filme Manas. Foto: Reprodução.
Foto: Reprodução

O filme “Manas” estreia nesta quinta-feira (15/05) no Brasil já premiado. O longa-metragem de Marianna Brennand circulou por festivais internacionais e conquistou 20 prêmios, incluindo o de Melhor Direção no Festival de Veneza. Com uma temática intensa – o abuso e a exploração sexual de menores de idade no Norte brasileiro – o filme traz grandes performances.

História

Tielle é a protagonista de “Manas”. A garota de 13 anos chega à puberdade, o que significa uma série de mudanças. Ela já tem responsabilidades na casa, como cuidar da irmã mais nova, mas agora a mãe quer que ela venda açaí na balsa. O pai começa a levá-la para caçar, incomodado com o que todos sabem que acontece na balsa. Mas em casa, a situação pode ser pior.

Na balsa, acontece exploração sexual de menores, e uma amiga de Tielle já vive nesse universo. A protagonista vê uma oportunidade de se afastar do pai e conseguir um dinheiro. A questão é que, em casa, ela vem sofrendo assédio do próprio pai, com a conivência da mãe. Uma figura religiosa ainda estimula a família a fingir que não há problemas, seguindo a palavra do pai – independente da hipocrisia de suas atitudes.

Atuações

Marianna Brennand se dedica pela primeira vez a um longa de ficção. Ela já dirigiu os documentários “Francisco Brennand”, de 2012, e “Danado de Bom”, quatro anos depois. O filme “Manas” é ficcional, mas inspirado em casos reais relatados sobre exploração sexual infantil na Ilha de Marajó (PA). Tanto que encerra agradecendo pelos relatos colhidos no preparo do filme.

A diretora consegue criar uma história coesa, que não parece uma colagem de relatos em forma de narrativa. Tielle é uma personagem viva e interessante. A atuação de Jamilli Correa é hipnotizante e “rivaliza” com adultos. Todo o elenco é muito bom, sendo peça chave para manter o filme interessante. Dos silêncios assustadores da mãe (Fátima Macedo) aos olhares dúbios e ameaçadores do pai (Rômulo Braga), há uma densidade nas atuações. Dira Paes também entrega uma ótima performance, mesmo com uma personagem mal aproveitada.

Temas reais

O filme consegue navegar por diversos assuntos inspirados em casos reais. Tanto a exploração infantil quanto os abusos por parentes e o domínio de religiões evangélicas na região são retratados. A religião prega uma família que aguente os abusos pela santidade da instituição, o poder público parece omisso em relação a denúncias de estupros. Mesmo quando a delegada ajuda a acabar com a prostituição em uma das balsas, isso tem pouco efeito nas comunidades ribeirinhas e em relação à violência familiar.

“Manas” chega a retratar superficialmente os diferentes casos, como a colega da escola que está grávida aos 13 anos. Todos fofocam que o pai da criança é o pai da própria garota, mas nada é feito. Não há abuso em tela, a violência também é evitada, até mesmo pela densidade do assunto e como forma de mostrar respeito – grande acerto da direção.

A fotografia do filme “Manas”, bem acertada, conta com cenas que valorizam as belezas naturais, em contraste à opressão que especialmente mulheres e meninas sofrem ali. O tema urgente é bem explorado, mas o filme abre tantas possibilidades que é difícil entender aonde quer chegar com sua mensagem final. O clima angustiante vai dando lugar à desesperança – quem sabe, um tom mais esperançoso pudesse abrir mais portas à discussão.

Por Brunow Camman
15/05/2025 09h00

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