Crítica: Fernanda Montenegro brilha em trama bem construída de “Vitória”

Filme Vitória com Fernanda Montenegro. Foto: Suzanna Tierie.
Foto: Suzanna Tierie

Emoção e urgência em cada movimento, essa é a entrega de Fernanda Montenegro no filme “Vitória”. A atriz, hoje com 95 anos, estrela o aguardado longa-metragem que chega aos cinemas no dia 13 de março. Laureada como uma das maiores atrizes brasileiras, neste filme ela demonstra mais uma vez o porquê de ser tão celebrada.

A trama é inspirada em fatos reais, mas não é uma biografia. O motivo fica claro mais tarde, sendo inclusive citado. Nina (Montenegro) é uma idosa que vive em um prédio ao lado de uma favela no Rio de Janeiro (RJ). Incomodada com a segurança, invadida dentro da própria casa por barulhos e tiros e ignorada pelos policiais, começou a filmar da sua janela as ações criminosas. Assim, foi juntando provas contra um esquema de tráfico e corrupção.

Enquanto não recebia atenção das autoridades, acabou encontrando o jornalista Flávio Godoy (Alan Rocha). Ele se espanta com o conteúdo das fitas – que incluem até denúncia de envolvimento de policiais militares com o tráfico. Mas isso pode colocar em risco a vida de Nina.

Realidade

Na vida real, a identidade de Vitória da Paz, como ficou conhecida, foi mantida em segredo até 2023, depois do início da produção do filme. Tanto que só depois se descobriu que a idosa na vida real era negra. O que gerou alguma discussão durante a divulgação do filme, tanto que nos créditos é ressaltada essa descoberta tardia. Já o jornalista da vida real é branco, enquanto Flávio é vivido por um ator negro. Essas mudanças estratégicas não alteram a trama, mas é importante terem destacado depois.

O filme foi sendo desenvolvido em meio a várias dificuldades. Primeiro, a pandemia de Covid-19. Depois, o falecimento do diretor Breno Silveira. O projeto foi retomado por Andrucha Waddington (genro de Montenegro), com quem já tinham trabalhado no celebrado “Casa de Areia”. A assinatura do filme fica dividida entre os dois diretores.

Visuais

As atuações são marcantes, incluindo ainda outros artistas como Linn da Quebrada e Laila Garin. Mas é Fernanda Montenegro que se destaca – e com razão. Cada fala é bem colocada e seus movimentos são bem medidos. A personagem é muito bem apresentada nos detalhes. A ligação de Vitória com a xícara quebrada, por exemplo, e sua insistência em consertar os erros é muito bem elaborado e explorado imageticamente.

A fotografia do filme é outro trabalho memorável. Por vezes, entre as cenas mais corriqueiras, surgem cenas brilhantes da luz de fora invadindo a casa de Vitória enquanto ela vigia os traficantes ou sua esperança sendo invadida por uma sombra ao ver Marcinho, o garoto que ela ajuda, sob efeito de droga na praia. O enquadramento quase teatral da favela sob a ótica da janela de Vitória, mostrando o aliciamento de menores, a violência e a ligação do tráfico com a polícia, pinta um quadro triste e impossível de ignorar. Assim como Vitória, é feito para indignar quem vê essas imagens, coroando um trabalho memorável da direção.

Por Brunow Camman
11/03/2025 17h01

Artigos Relacionados

Dia da Pipoca permite encher balde de até 10L por R$ 19 em cinemas de Curitiba

“Ainda Estou Aqui” faz história e vence Oscar de Melhor Filme Internacional