Cinco minutos não é atraso.docx

foto: Canva

 Ok. 18h53. Não vou colocar Estar — só se a guardinha aparecer. O negócio tá marcado pras 19h e eu estacionei a duas quadras, então considerando que levo um minuto andando até lá, vou sair do carro 19h04.

Esse horário de pico é um inferno e preferi já vir vindo pra segurar no acelerador e no cortisol, ainda que esteja na aplicação desse novo sistema de cinco minutos atrasada.

Eu sempre tive uma questão com atrasos. Mesmo pra compromissos de uma cervejinha na prudente. Se marco um horário e não cumpro: uma dor física me ataca. Como se eu recebesse chicotadas nas canelas e panturrilhas e coxas ativando elas num mexe-mexe e levanta e roda, agoniadas pra ir logo — pra onde quer que seja.

Numa manhã dessas, entrou a discussãozinha boba sobre horário e tamo atrasadas faltam três minutos, e é aqui embaixo! e mais e se o elevador demorar vai dar ruim, ela me veio com essa:

— Calma. Se atrasar vai ser o quê? Cinco minutos? Ninguém considera cinco minutos atraso.

Não? Cinco minutos. Trezentos segundos. Um lapso temporal despercebido?

Foi aí que eu decidi ser igual a todo mundo e forçar o atraso de cinco minutos. Pra tudo. Dentista. Almoço de família. Cerâmica. Oficina online. Churrasquinho com migues. Ioga. Bar. Tênis. Clube do Livro. E por enquanto, acho que tá dando certo.

Quando começa a chegar a hora do evento e minha cabeça ordena coração e  pulmões a dispararem o ritmo — tipo agora — aplico técnicas de passagem do tempo como cantar Faroeste Caboclo e tento me concentra pra não pensar no atraso. Me concentrar pra me distrair.

Não tinha medo tal João de Santo Cristo.

Respira. Nos cinco minutinhos, nada ainda aconteceu, nada começou, não sou por segundos o centro das atenções direta de todos por estar chegando atrasada.

Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança, isso eu não faço, não.

E sucesso.

19h04.

Agora é só pegar a ecobag, a chave e. Porra. Cadê a chave?

Quem teve essa ideia brilhante de não precisar enfiar a porra da chave na ignição pro carro funcionar? E agora, onde dentro desse carro eu meti essa caceta dessa chave?

Merda. Nada no chão. Nem no vão da porta. E não adianta nem usar o rastreador porque vai dar aqui: dentro do carro!

Já 19h06 e não acho a porra dessa Achei! Camuflada no banco do carona. Preciso de um chaveiro neon.

Afe. Virou pra 19h07. Pelo menos mais uns quarenta segundos pra eu atravessar as duas quadras num passo bem do apressado. Vai fechar praticamente oito. Oito minutos de atraso.

E eu ainda ofegante.

Geral me olhando, me encarando, por quatro ou cinco eternos segundos. E aí algum julgamento tipo eita, que vacilona ou devia pintar essa mecha branca ou ainda que tar, que gatin (ok, me perdi).

Esfrego os dedos nas palmas das mãos um pouco suadas. Pego o celular e mando uma mensagem pra ela: Tô indo pra casa. Deu preguiça. Vamos pedir pizza?

Por Rai Gradowski
18/07/2025 10h42

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