Em sua primeira aparição no cinema, ao lado de uma equipe cujo potencial foi destruído em todos os níveis de uma produção cinematográfica – do roteiro à montagem, “Esquadrão Suicida” é uma aberração hollywoodiana – Arlequina (Margot Robbie) se destacou por dois fatores principais: o conceito visual, embora hipersexualizado, e a personalidade, que sugeria algo mais profundo a ser explorado. De 2016 para cá muita coisa mudou. Não só Hollywood foi tomada por movimentos como o Me Too e o Time’s Up, mas filmes produzidos e protagonizados por mulheres arrecadaram bilhões nas bilheterias. Este contexto, somado ao colapso do universo cinematográfico da DC, possibilitou a emergência de “Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa”.

Com direção de Cathy Yan e roteiro de Christina Hodson, Aves de Rapina encontra Arlequina logo após seu término de relacionamento com o Coringa. Sem a proteção do Príncipe Palhaço do Crime, Arlequina descobre que metade de Gotham a quer morta, incluindo o vilão Roman Sionis (Ewan McGregor). Para salvar a si mesma, Arlequina concorda em caçar a jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco) para Sionis, mas sua missão é interrompida por Renee Montoya (Rosie Perez), Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell) e pela misteriosa Caçadora (Mary Elizabeth Winstead).

Com elenco e equipe formados majoritariamente por mulheres, não surpreende que Aves de Rapina seja um filme direcionado para elas. Os relacionamentos entre mulheres têm uma dinâmica própria, mas ainda enfrentam traços da contaminação do patriarcado, e esta dinâmica é emulada nos interações de Arlequina com seus pares. Numa sociedade que nos ensina a olhar com desconfiança para nossas próprias irmãs, muitas vamos reconhecer situações pelas quais a protagonista passa, e consequentemente nos emocionar quando ela encontra um grupo de mulheres que conseguiu se livrar desta disfunção. É algo que todas nós merecemos: amigas que choram, sorriem e socam vilões conosco.

Em nenhum momento Aves de Rapina declara os homens como inimigos, mas também não comete a ingenuidade de ignorar o efeito que a dominância deles exerce na vida – e nas desventuras – das protagonistas. Novamente, muitas das situações enfrentadas por elas serão reconhecidas pelas mulheres do outro lado da tela.

Apesar de seus temas predominantemente femininos, Aves de Rapina não é, de forma alguma, um filme exclusivo para mulheres. Suas sequência de ação e comédia certamente apelam para um público mais vasto, que inclui qualquer homem que aprecie o sub gênero de super-heróis. Se parte do tempo de projeção é investida na apresentação das tais Aves de Rapina, a outra parte é dedicada a aposentar a maior quantidade possível de capangas de Sionis.

Além da excelente direção de Cathy Yan, o longa traz atuações divertidíssimas Margot Robbie, Ewan McGregor e Mary Elizabeth Winstead. Chris Messina aparece um tanto perturbador como o vilão Victor Zsasz. Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa oferece 1h49min de caos colorido e cintilante, que não desconsidera seu contexto histórico, mas não se deixa abater por ele.

Crítica por Luciana Santos, especial para o Curitiba Cult.