Um eu-poético sagaz, sem medo de exposição. Uma montanha-russa destruída e reconstruída para ser recuperada a seu estado inicial.

Ariel é, antes de tudo, um livro de apontamentos. Entre lapsos de esperança e fatalismo, superação e angústia, condenação, os poemas que compõem a obra foram delicadamente organizados por Sylvia Plath, antes do suicídio aos 30 anos. Ted Hughes, marido adúltero, alegando querer proteger a obra da mulher, retirou poemas que considerou ofensivos e os reorganizou, aumentando a justificativa do ato de Sylvia, como se, na ordem escrita, representassem um declínio inevitável, uma última viagem deprimida.

Anos mais tarde, essa arrumação foi descoberta. Ted foi acusado de interferir na “santidade” de uma mulher que não esteve constantemente se afundando em tristeza, e Ariel é a expressão de uma angústia que não cessa, apesar de bem-vinda. Não é que o eu-poético tenha abraçado o fatalismo — ele foi envolvido pelo inevitável e lutou o quanto pôde, detalhando, verso a verso, um embate perdido.

Como resistir à tentação de não associar as vozes dos poemas à própria autora? Eles ofenderam vizinhos, humilharam membros da família de Sylvia e, hoje, encantam qualquer leitor. Trazem um movimento de linguagem sintaticamente impecável e cuja ressonância de agressividade, sensualidade e obstinação ecoam como velhas reações a velhas histórias pessoais do leitor. A montanha-russa do eu-poético apresenta o frescor de um talvez e descarrila rumo ao não.

Ariel, com sua narrativa, é leitura obrigatória a qualquer amante de boa poesia; obra final de poeta suicida.