Ana Cañas lança novo disco hoje (04/04); confira entrevista exclusiva

Ana Cañas no disco Vida Real. Foto: Fernando Furtado.
Foto: Fernando Furtado

Menos de uma semana depois de abrir o show de Alanis Morissette em Curitiba, Ana Cañas lança o disco “Vida Real”. O disco chegou às plataformas nesta sexta-feira (04/04), com 11 faixas e participações de Roberta Miranda, Ivete Sangalo e Ney Matogrosso. A canção-título abre o disco e foi apresentada no palco da Pedreira Paulo Leminski. O álbum traz uma visão concisa da artista e quase todas são suas composições – exceto “O Que Eu Só Vejo em Você” de Nando Reis. Ana Cañas contou com exclusividade ao Curitiba Cult sobre esse novo trabalho.

Ana Cañas

A cantora paulista começou a carreira em 2007 com o álbum “Amor e Caos”.  O disco de estreia conquistou a crítica especializada que a considerou destaque como revelação do ano. Ela ainda conseguiu reconhecimento internacional, indicada em 2018 pelo álbum “Todxs” na categoria Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.

Depois da pandemia, a artista lançou a turnê “Ana Cañas Canta Belchior”, passando por grandes casas de show brasileiras somando mais de 180 apresentações. A tour rendeu a ela o prêmio de Melhor Show do Ano pela Associação dos Críticos de Arte. Agora, lança seu mais recente trabalho autoral, “Vida Real”.

Desde antes do show de abertura para Alanis Morissette, você vem comentando sobre a influência dela na sua carreira, assim como de outras mulheres. Qual a ligação de seu trabalho com mulheres artistas?

Eu acho que ela tá muito no meu inconsciente existindo como mulher artista. A ALanis tá sempre aqui, sabe? Como tá a Rita Lee, como tá a Patti Smith, Frida Kahlo, Nina Simone, Billie Holiday, que eu tenho tatuada no braço. Joni Mitchell é outra artista que eu admiro profundamente, assim. E o disco “Blue” é um disco que eu ouvi até rasgar, furar. Então, são mulheres, a força do feminino. E como encontrar esse lugar de ser mulher na arte, na música. Quais são as camadas? O que esse eu lírico tem de específico. Porque a gente sabe, o lugarzinho da mulher no mundo ainda é um lugarzinho a ser conquistado, né? A gente vai cavando e lutando pela equidade. Então, são meus pares. Meus pares artísticos.  

E a turnê passada traz o trabalho de Belchior.

Eu vivi quatro anos tocando Belchior, que é um homem, mas curiosamente um homem que tinha muito um espaço do feminino dentro da sua obra, a reverberação. Eu encontrei muito lugar como mulher dentro da obra do Belchior. Então, foi muito legal também. Enfim, intersecções. Eu acho que canções como ‘Coração Selvagem’, ‘Divina Comédia Humana’, ‘Paralelas’, nossa, elas têm um espaço para o feminino. Tanto é que foi gravado, né? Por Elis, por Vanusa, por Elba Ramalho, por Fafá de Belém, por elas todas, né? Então, é maravilhoso, assim. Ele permite muito esse feminino dentro, com certeza.

Por que o nome “Vida Real”?

Você não pode pretender emocionar um ser humano se isso não passar por você primeiro. E aí, quem eu sou? Qual a minha vida? O que eu tenho a dizer? Quais os meus valores? Qual abismo eu vou saltar hoje? Ou você dá a verdade sua, ou nada vai acontecer. Isso eu aprendi vendo Ney, vendo a Ivete. Você já viu um vídeo chamado ‘Jamaico’? ‘Jamaico’ é um doutorado sobre várias coisas, no sentido da vida real, do quanto a Ivete tem apreço pelas pessoas. Eu sou uma pessoa super do espiritual, tenho interesse pelas religiões, por antropologia, sociologia, estudos de coletivos humanos. Eu mesma, pessoalmente, sou uma pessoa que acredita que é mais pelo amor, pelo afeto a parada, sabe? Se você trata bem as pessoas ao seu redor, é isso aí, entendeu? Se você se coloca no lugar  de todo mundo, empatia. Pra mim, Deus seria mais nesse lugar, sabe? Empatia, amor, afeto, verdade, sentimento, assim. Isso tá sempre no meu trabalho, essa dimensão existencial, transcendental, isso é uma coisa que sempre tá ligada ao que eu estou escrevendo, pensando, compondo. A música propõe uma comunhão coletiva.

E como isso chega ao público nos seus shows?

Cara, eu tinha um pianista no bar, quando eu cantava nos bares, que ele me ensinou muita coisa, o Mário Edson. E o Mário tocava no Beco das Garrafas. Ele tinha 70 anos, eu tinha 22. E ele me ensinou muita coisa, e uma das coisas que ele dizia era assim: ‘olha, Ana, quando você canta no palco, tem que abrir uma roda de fogo, entendeu? E você tem que cruzar essa roda de fogo, se não, o palco não é pra você.’ Cara, eu sempre penso nisso, faz 22 anos que eu penso nisso. Porque é verdade, entendeu? O palco é sagrado, as pessoas saíram de casa, pagaram ingresso, pagaram estacionamento, largaram a Netflix, compraram sua cerveja, estão de frente ali pro palco, esperando. Então, pra mim, ou você entrega tudo, ou você entrega tudo, entendeu? Então, o transcendental, espiritual, nesse momento vem nesse lugar do respeito pela existência humana, sabe? Tipo, as pessoas abrem seus chakras no show. Eu quando vou a show, eu faço isso, tipo: ‘me emociona, pelo amor de Deus! Tô aqui pra isso, cara, me dá essa emoção, vamos cantar junto’, é muito lindo, sabe? Então, sempre vai ter essa dimensão, a música pra mim. A arte como um todo.

Quase todas as faixas  de “Vida Real” são suas composições. Quais suas principais inspirações?

Tudo biográfico. Essas músicas vão de 2013 a 2024. Todas biográficas. Tem vários romances aí. Tem paixão não vivida, frustrada. Tipo o famoso toco que eu tomei, que é ‘Derreti’. ‘Derreti’ é tipo aquela paixão platônica que eu tive por uma pessoa. Um homem maravilhoso que era casado. E não deu, né, irmã? Não deu, o cara é casado e é isso aí. Então pega o seu banquinho, saia de fininho, e compõe a sua canção. Porque eu fui amante de um cara casado. Então ‘Amiga se Liga’ com a Roberta Miranda é sobre ser amante. Eu fui amante.Vivi de migalha. Rasguei a cartilha do feminismo, joguei pro alto, me humilhei, me arrastei por um homem casado. Vivi, escrevi a canção. Tem paixões vividas. Tem uma canção para o meu irmão que faleceu com 24 anos. Tem tudo que eu posso escrever até agora nos últimos anos da minha vida. E tem coisas despretensiosas também, porque eu adoro pop. Então uma canção como ‘Brigadeiro e Café’ com a Ivete, criadora de ‘Jamaico’, é tipo maravilha pra mim. Não ser tudo cabeção. Tem umas coisas simples e fáceis e gostosas de ouvir. Então é um disco que tem essa dicotomia do pop com a trovadora.

Você já tinha cantado com Ney Matogrosso antes, mas agora ele grava uma canção sua, como é levar a música “Derreti” para Ney?

E o que eu vou falar do Ney Matogrosso? Um dos artistas mais importantes da história da música brasileira. Um ser humano de outra dimensão. Uma pessoa com uma generosidade incrível. Você imagina pra mim, compositora, ver o Ney gravar a minha música. A música que eu escrevi. Isso pra mim tem um valor inestimável. Como compositora, foi um presente. Já tinha cantado ‘Paralelas’ com ele no ‘Belchior’. Mas vê-lo gravar a minha música é outro patamar de emoção. E o Ney é perfeito.

Por Brunow Camman
04/04/2025 09h30

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