A superação de desafios dentro e fora do teatro no Festival de Curitiba

Coletiva de imprensa do Festival de Curitiba. Foto: Annelize Tozetto
Foto: Annelize Tozetto

Tratar de temas sensíveis em busca de grandes mudanças sociais pode ser difícil, mas as companhias que participam do Festival de Curitiba não fogem desse desafio. Na coletiva de imprensa da manhã de quinta-feira (02/04), diversos grupos de Teatro falaram sobre problemas como preconceito e violência, e também das dificuldades dopróprio fazer teatral. Participaram das entrevistas a Armazém Companhia de Teatro, equipe e atores da Mostra Surda, equipe da Mostra Baía de Vozes Insurgentes, Rafael Souza-Ribeiro da peça “Jonathan” e a Súbita Companhia de Teatro.

“Dias Felizes”

A Companhia Armazém abriu a coletiva falando de “Dias Felizes”, um texto de Beckett carregado de significados. A personagem principal começa soterrada até a cintura, falando com o marido que é quase um oposto. Nos silêncios, estão presentes fortes dramas íntimos. “É uma obra de imensa qualidade que apresentava um desafio para a gente“, contou o ator e tradutor do texto, Jopa Moraes, destacando que foi preciso encarar Beckett como uma estratégia de cena.

O grupo falou ainda sobre como um texto dos anos 1950 ainda pode dialogar com o hoje. Porém, se questionam se o público, em dias de atenção difusa e rápida dispersão pela quantidade de informação recebida, consegue encarar um espetáculo de muito diálogo e pouca ação. “Gosto de entrar em cena com esse questionamento“, comentou a atriz Patrícia Selonk. Joca ainda encerrou comentando uma fala que se repetiu ao longo da coletiva: a dificuldade de um espetáculo seguir em cartaz. Há incentivo para a criação, mas pouco se pensa na circulação de peças. O Festival de Curitiba é uma dessas possibilidades, mas é preciso trazer mais ações nesse sentido, destacou o grupo. As sessões acontecem no Guairinha, dias 03 e 04 de abril, às 20h30.

Mostra Surda

A terceira edição da Mostra Surda seguiu a linha da Mostra Lucia Camargo, mas com um efeito diferente. Os curadores Jonatas Medeiros e Rafaela Hoebel selecionaram alguns trabalhos solo, o que ajuda a demonstrar o quanto as artes feitas por pessoas surdas trabalham de forma independente. “A dificuldade de acessar editais públicos e de não participarem da economia cultural faz com que muitas vezes as pessoas surdas tenham como única materialidade o próprio corpo. É o corpo que é espaço dramatúrgico, mas que também faz o figurino, a luz“, explicou Jonatas.

A Mostra Surda tem apresentações gratuitas na Capela Santa Maria, de 03 a 04 de abril, com oito espetáculos e duas oficinas.

Vozes Insurgentes

A Mostra Baía de Vozes Insurgentes traz seis solos de mulheres baianas ao Festival de Curitiba. As atrizes apresentam um repertório variado, costurado por diálogos sobre mulheres e as lutas diárias no mundo. Márcia Limma, de “Medeia Negra”, pontuou: “Medeia não chora, mas eu choro todos os dias enquanto mulher negra, enquanto tem mulheres sendo assassinadas o tempo inteiro e os homens não se mexem“. Essa mostra faz resgates históricos reais, como de Felipa de Sousa, a primeira mulher brasileira condenada por lesbianismo em 1592, e discussões sociais de temas urgentes como feminicídio. O grupo também falou da importância de fazer circular peças pelo Brasil, dando nova vida às produções.

“Jonathan”

A partir da história do animal vivo mais velho do mundo, a tartaruga de 193 anos Jonathan, Rafael Souza-Ribeiro elabora a peça, indicada ao Prêmio Shell. Ele faz um paralelo entre a vida longa do animal e as vidas de jovens negros que, por vezes, acabam tão cedo. Encenando pela primeira vez fora do Rio de Janeiro, o artista comentou sobre a colonização não apenas de corpos, mas de relações e individualidades: “a violência da colonização está também nos afetos, no que pode ou não ser dito“.  “Jonathan” teve sessões na Mostra Pôr do Sol e segue na Mostra Lucia Camargo nos dias 02 e 03 de abril, às 20h30, no Sesc da Esquina.

Súbita

A última entrevista do dia aconteceu com a Súbita Companhia de Teatro, que apresenta na Mostra Lucia Camargo a peça “Deriva”. A montagem destaca a relação das pessoas com a cidade, mais especificamente Curitiba, e como os corpos circulam pelo ambiente urbano. “A cidade está nos atravessando intensamente“, comentou a diretora de movimento Juliana Adur. O espetáculo não tem uma estrutura tradicional, acompanha personagens que não são fixos interagindo com a cidade, algo que não tem um conflito central, o que foi um desafio para a montagem. Mas é desse desafio que surgem soluções criativas para o desenvolvimento de “Deriva” – que terá sessões nos dias 06 e 07 de abril, às 18h30, no Teatro José Maria Santos.

Por Brunow Camman
02/04/2026 18h42

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