“A resposta talvez esteja no disco”: entrevista com Rubel, que lança quarto álbum

Rubel lança novo disco. Foto: Bruna Sussekind.
Foto: Bruna Sussekind

“Beleza?”, “Beleza”. Logo no início da entrevista, Rubel já comprova que o nome do seu novo disco reproduz uma produção bem íntima, cotidiana, a expressão que ele usa com frequência. “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?” é o quarto álbum do cantor e compositor, que chegou curiosamente às plataformas às 22h do dia 28 de maio. O trabalho bem pessoal vem com uma frase no título, um momento de contemplação curiosa entre o que aconteceu e o que ainda está por vir. Em uma entrevista exclusiva para o Curitiba Cult, Rubel fala sobre inspirações, sonoridades, o projeto audiovisual que acompanha o álbum e mais.

“Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?” é um nome mais comprido, já traz um pouco da ideia do disco, uma questão bem íntima, como uma fala mesmo. Como é que foi pensar nesse nome?

Então, eu tenho um livro de um autor carioca chamado “Triste não é ao certo a palavra” (Gabriel Abreu). E eu achei esse título muito incrível. Porque ele me gera muitas perguntas e me gera muita curiosidade. Por que triste não é o certo a palavra? Qual é a palavra, então, se não é triste? E aí eu comecei a pensar várias coisas a partir desse título.

E eu pensei: eu queria ter algum título que tivesse um pouco esse caráter que é de uma ação que já está acontecendo e você é jogado dentro dela sem muitas explicações. Eu gostei dessa sensação de um título que me deixasse um pouco desorientado e curioso ao mesmo tempo. E que também desse essa tônica literária que remetesse a um diálogo de um livro. Ele é pra gerar perguntas e questionamentos e não pra dar uma resposta. Porque a resposta talvez esteja no disco. Ou a resposta vai estar na própria pessoa.

Ela pode ser tanto ‘beleza, o que a gente faz com isso, a vida?’. O que a gente faz com esse espaço de tempo de sei lá, 80 anos, 60, 100, 40, não sei quanto tempo eu vou viver. Mas o que eu faço com o tempo que me é dado na Terra? Como é que eu faço essa experiência valer a pena? Como é que eu driblo a morte em vida? Como é que eu ganho da morte estando vivo? Pra mim essa é a dimensão número um que rege um pouco do disco. Mas ela pode ser usada pra coisas tão mais triviais, como: você descobriu que você quer ficar com uma pessoa. Beleza, mas agora o que a gente faz? Você descobriu que você não quer ficar com uma pessoa. Sabe, é uma frase que surge muito porque basicamente é uma dúvida, ela é uma interrogação, essa frase. É uma grande interrogação. Então ela se aplica a muita coisa.

A expressão “Beleza” traz uma ideia de que você fez uma primeira descoberta, mas ainda tem outras a serem feitas. E acho curioso quando você fala do tempo porque tem justamente uma música que fala diretamente sobre isso. Algumas citam o tempo, mas “Pergunta ao Tempo” vai nessa questão da vivência de decidir o que está acontecendo enquanto está acontecendo.

É, total. Eu amo muito a beleza ali por vários motivos. Primeiro que ela, através do ponto, constitui duas frases e eu não me lembro de ter visto algum título que é constituído de duas frases. Porque ‘Beleza’ é uma frase, ‘Mas agora a gente faz o que com isso?’ é outra. E justamente isso que você falou. O ‘beleza’ pressupõe que você está constatando alguma coisa que já aconteceu. Então acho que é o ‘beleza’ que ajuda a dar essa ideia de movimento, de que algo aconteceu antes que você não viu e você entrou no meio dessa história. E pela dimensão da própria beleza mesmo, porque ‘beleza’ é uma expressão que a gente usa para fazer um aceno de concordância, né? Beleza. Mas ela também é a beleza, né? A beleza estética. A beleza é uma palavra que é muito bonita e ela tem esse duplo sentido que poucas vezes é explorado, eu acho. O tempo é uma questão central do disco e o que a gente faz com o tempo, também, é uma das perguntas.

É o seu quarto disco, se a gente contar os volumes 1 e 2 de “As Palavras” como um projeto só. E de certa forma você também volta um pouco aos primeiros discos como referência. Você vê esse novo disco como uma renovação do projeto, uma continuidade do que você já vem construindo, sonoramente falando?

Mais uma continuidade do que uma renovação, porque eu acho que esse disco é muito calcado em pilares de coisas que eu já tinha construído. Ele não é uma tentativa de subverter aquilo, pelo contrário: é uma tentativa muito de honrar meus primeiros discos e a estética e a história que eu já vinha construindo. Então, eu acho que tem alguns elementos que eu quis manter ou dialogar com, por exemplo: o violão é muito presente. O violão é um elemento central que era o elemento central do ‘Pearl’.

O ‘Casas’ brincava muito com o uso de samples e de uma estética do hip hop, que tem um pouquinho disso no disco. Eu acho que, mais do que isso, a sensação de intimidade, o tipo de textura. Esses dois discos tem uma coisa que é quase como se eles fossem lugares que você entra. Sonoramente, eles criam uma coisa meio espacial, e eu queria muito ter essa sensação de novo, de unidade sonora que você desse play e você entrasse nesse lugar, e você ficasse nesse lugar até o fim do disco.

Agora ele aponta pra muitos lugares novos também em termos de harmonia e de composição. Eu acho que ele está muito mais calcado na tradição da MPB do que os outros. Ele parte muito de um estudo da harmonia, é muito sobre os acordes, sobre a relação de acordes e melodia, muito mais do que meus discos anteriores. Eu acho que essa é muito a alma do disco: a harmonia, o violão e o canto.

Então, é como se eu pegasse um pouquinho daquela intuição e daquela alma dos discos anteriores, mas juntasse com as referências que eu mais amo no mundo, que é a MPB dos anos 70, e que talvez eu precisasse ter vivido ‘As Palavras’ e ter me embrenhado mais na cultura brasileira pra poder chegar numa resultante que mistura tudo isso.

Eu acho que ele é total uma soma desses três trabalhos. Ele é um quarto trabalho que é resultante de tudo o que aprendi nos três.

Você tem uma participação do Arthur Verocai, isso?

Tenho. O Verocai escreveu as cordas da última música, que é ‘Reckoner’ (uma versão de Radiohead). O Verocai é uma referência, obviamente. Eu sou muito fã dele. A gente tinha trabalhado junto já numa música que eu lancei na pandemia, que é um samba chamado ‘Homem da Injeção II’. E a gente se deu muito bem. O Verocai foi muito generoso comigo. Ele é um cara muito sério e cisudo, mas ele é absolutamente carinhoso e amoroso ao mesmo tempo. É uma figura fascinante. E esse disco, como um pilar dele era violão e cordas – pra mim sempre foi um disco disso. Que é um pouco inspirado pelo ‘Amoroso’ do João Gilberto, pelo ‘Fina Estampa’ do Caetano. E o Verocai é um dos maiores nessa estética das cordas brasileiras.

O Tom Jobim, o Jaques Morelembaum, são pessoas que criaram essa estética das cordas brasileiras que eu queria muito, de alguma forma, dialogar com isso no disco. E foi incrível poder ter o Verocai nessa faixa e acho que ser a última faixa do disco também ajuda a amarrar essa história e fechar essa narrativa de referências mesmo. Acho que ele é um disco muito de referências, sobre as coisas que eu amo.

Tirando essa e mais “A Janela, Carolina” a maioria são composições suas mesmo? Como foi o processo de escrita? Faixas como “Ouro” trazem uma questão imagética, isso é herança do audiovisual, quando você estudou cinema?

O processo da escrita das letras foi próximo de um processo de escrita de um livro, porque eu tinha todas as melodias prontas e harmonias, e não tinha nenhuma letra. E aí eu parei de uma vez só, ao longo de um mês, pra escrever todas as letras ao mesmo tempo. Era quase como se eu estivesse escrevendo uma única letra, uma única peça, sabe? E o único critério que eu tinha era respeitar as ideias que me viessem, quase como um fluxo de consciência, sem julgar muito. Porque é difícil, né? Quando a gente vai escrever, a gente se preocupa muitas vezes com como vai ser, como que eu vou receber, qual é a palavra que eu quero.

E eu tentei ser muito visceral no sentido de aceitar as ideias malucas que me viessem. Então eu acho que o reflexo disso foi essa coisa mais imagética mesmo. Essa música, ‘Ouro’, especificamente, são muitas imagens de coisas que eu vivi com uma pessoa ou coisas que eu imaginei a partir da sensação que essa pessoa me desperta. Muita coisa dali não é uma história real, mas são imagens que realmente me vieram. A coisa da varanda, a própria coisa do ouro. E aí eu não sei de onde vem isso, mas acho que tem esse lugar quase um fluxo de consciência, mesmo. Não vou pensar na história que eu vou contar, eu vou sair escrevendo e vou ver o que dá, sabe? E aí, nesse fluxo vieram muitas imagens.

E eu gosto disso, eu também gosto muito de ‘Ouro’. Eu fico feliz com essa música, porque ela é muito abstrata, né? Só que ao mesmo tempo, pelo menos pra quem eu mostrei o disco, está tendo uma aceitação muito grande. E eu acho muito maneiro quando isso acontece. Uma letra muito estranha podendo ser cantada por muita gente. Eu espero muito que isso aconteça.

O disco também é acompanhado por um vídeo. Não teve a intenção de dirigir, já que tem histórico no audiovisual?

O vídeo foi concebido pela Larissa Zaidan, que é uma diretora incrível de São Paulo, que fez o trabalho do Yago Opróprio agora, que é lindo. E eu mandei o disco pra ela ainda inacabado. E ela ouviu o disco e criou essa história e essas imagens, esses personagens, a partir do disco. Isso é muito legal, porque ela criou imagens que não tem nada a ver com as histórias que eu estou contando diretamente.

O vídeo fala sobre pessoas que vivem na cidade de Cubatão, em São Paulo. Essas pessoas não são as pessoas do meu disco, mas ao mesmo tempo elas são unidas por uma coisa mais sensorial, talvez, mais temática. Acho que o filme tem a ver também com o pensamento sobre o tempo e sobre o fato de que a vida acaba. E isso tudo veio de uma maneira muito intuitiva pra Lari. Ela ouviu essas canções e foi criando essas imagens a partir do que as canções despertavam nela.

Eu tentei em algum momento criar coisas audiovisuais pra esse disco, mas eu não consegui achar nada criativo. Eu sentia que eu estava meio limitado por talvez ser o compositor. Isso, ao invés de me ajudar, estava me atrapalhando. Então, eu quis muito ter um olhar externo e eu pensei que como a Lari é muito boa, tem uma visão incrível. Eu achei que quanto menos eu interferisse, melhor seria o resultado.

E passa também pra esse lugar, que ele não é um clipe, então você não está indo para um local tradicional de divulgação da música, mas também de criar esse panorama sensorial que combina com o disco. É algo que você tem pensado, trazer referência de literatura também? Para você, essas referências vêm de várias outras linguagens da arte e elas se cruzam dentro da tua música?

Sem dúvida, eu amo muito cinema, eu amo muito literatura, e amo muito música. E isso tudo se funde de uma maneira que eu não sei muito explicar onde uma começa e onde a outra termina. Especialmente nesse disco, que foi muito intuitivo, então tem coisa que eu não sei de onde veio, mas acho que o resultado, como você mesmo está falando, ele parece um pouco isso, essa mistura de imagens cinematográficas e frases literárias e música. Então pra mim isso é muito incrível. É o que me interessa, é o que me desperta paixão mesmo.

A música pop e o hip hop, nesse momento do mundo, têm olhado muito para essa construção imagética de um universo. Tem pessoas que fazem isso muito bem: o Tyler, The Creator faz isso muito bem, o Kendrick Lamar, a Billie Eilish, o Yago Opróprio fez isso – no Brasil tem uma galera que faz isso muito bem também. E isso me fascina muito, que é a possibilidade de você criar um disco que ele vem junto de um universo visual. Seja com clipe ou com curta, ou com filme, mas que ele cria uma identidade, uma paleta de cor, uma sensação, e isso ajuda você a escutar o disco. Isso ajuda você a criar uma sensação com aquela obra. Eu acho muito foda quando isso acontece.

Eu acho que eu quero muito caminhar minha carreira nessa direção, de cada vez mais o filme, os vídeos e o disco serem uma coisa só. Eu acho que esse projeto é um grande passo nessa direção, de serem coisas complementares e que um vive com o outro, um ajuda o outro a existir.

O lançamento do disco foi marcado para o dia 28, às 22 horas. Não é um horário muito convencional. Tem algum motivo?

Tem um motivo. As pessoas lançam ou de manhã ou meia-noite, que eu acho um horário horrível, porque meia-noite a pessoa está indo dormir ou já está dormindo. Eu queria muito que fosse um horário que as pessoas pudessem ouvir coletivamente, se reunir com seus amigos para escutar ou chamar seu namorado, sua namorada, ouvir com a mãe, com o pai, com a família. Eu estou tentando. Comecei a incentivar um pouco mais diretamente no Instagram, essa ideia de uma experiência de audição. Eu queria muito que as pessoas pudessem ouvir num horário que fosse assim: ‘agora, todo mundo, vamos parar o que a gente está fazendo e vamos escutar esse disco’.

A ideia de 22 horas seria um horário meio pós-jantar, que você não tem nada acontecendo e você vai poder parar sua atenção para escutar o disco e chamar seus amigos e se reunir para fazer uma audição ativa. É uma parada que eu amo, chamar gente para escutar junto. Eu acho que é uma experiência muito profunda que foi meio perdida.

Acho que na época do vinil as pessoas faziam mais isso. Se juntar para ouvir disco. E hoje em dia é mais raro. Então a minha ideia é fazer um pouco uma mini campanha para que os fãs se engajem para experimentar o disco dessa maneira. Tomara que dê certo.

Por Brunow Camman
29/05/2025 10h00

Artigos Relacionados

Lendário guitarrista de jazz Pat Metheny se apresenta em Curitiba

03 Perguntas para Jovem Dionísio, atração do Coolritiba 2025