A possibilidade de diálogo em cena no Festival de Curitiba

foto: Annelize Tozetto
foto: Annelize Tozetto

Representatividade e diálogos entre opiniões diferentes estiveram em pauta na coletiva de imprensa do Festival de Curitiba nesta segunda-feira (06). Elencos e equipes de “A Bailarina Fantasma”, “Dois Papas” e “Pai Contra Mãe ou Você está me Ouvindo?”, todas da Mostra Lucia Camargo, conversaram com jornalistas e destacaram temas relevantes e o papel da arte em abrir conversas sociais atuais.

Balé ou teatro?

A Bailarina Fantasma” é um trabalho coletivo que surge das vivências da artista negra Verônica Santos desde a infância no mundo do balé. Com dramaturgia de Dione Carlos, o espetáculo borra as fronteiras entre linguagens e coloca o público em cena para aproximar os sentimentos e o diálogo com a arte. “A técnica colabora muito para ‘A Bailarina Fantasma’”, explicou Guilherme Zomer, da equipe técnica performativa. Tendo inspiração na escultura “A Bailarina de 14 anos” do francês Degas, a montagem dá relevância aos aspectos técnicos como música, cenário e iluminação da atmosfera.

Verônica compartilhou momentos dolorosos da vida, do preconceito racial ainda criança sofrido até pela professora de balé clássico, até a perda de uma gestação, e como essas experiências permeiam seu trabalho. O que se reflete também numa arte aberta, sem classificação se é teatro, dança, performance. “É público, é político, é denúncia. Tem gente interessada em saber o que está acontecendo, as pessoas saem diferente (da peça). Aí se as pessoas entendem se é teatro, se é dança, cada um com a intelectualidade que tem, que assuma. Eu quero que a gente esteja, cada vez mais, em relação com pessoas querendo escutar para que a gente possa trocar”, Verônica encerrou.

“Dois Papas”

Quando o diretor Munir Kanaan assistiu ao filme “Dois Papas”, pensou: isso daria uma peça. Então, descobriu que o texto nasceu nos palcos – e tinha ainda mais nuances, como outros personagens. Em cena, os atores Zécarlos Machado e Celso Frateschi interpretam o Papa Bento XVI e o Cardeal Bergoglio, que viria a ser o Papa Francisco. Zécarlos destacou a importância de discutir questões como a ditadura em países latinos e a influência da Igreja Católica nisso. Os dois Papas têm visões opostas sobre a condução da Igreja, mas o ator aponta: “a peça traz uma possibilidade de diálogo, de encontro em que é possível a humanidade prevalecer”.

O diretor destaca o uso do cenário e parte técnica como forma de recriar subjetivamente o Vaticano. Um mobiliário todo branco revela a clareza da conversa e tentativa pela paz na oposição de opiniões. Isso se reflete na montagem, que trata de forma respeitosa a Igreja, sem deixar de colocar o dedo na ferida. “Para você tentar dialogar, não dá para chegar com os dois pés no peito. A peça vai de mansinho. Para mim, teatro só interessa se houver diálogo com a plateia”, o diretor pontua.

Machado de Assis

Pai Contra Mãe ou Você está me Ouvindo?” parte de um conto de Machado de Assis que trata de racismo e questões sociais e de gênero. O dramaturgo Jé Oliveira resgata a história e a conduz ao momento atual. Os protagonistas, por exemplo, estão em um supermercado: “em uma analogia ao mercado negreiro e o mercado atual”, explica.

“Pai Contra Mãe” é um conto publicado em 1906, menos de 20 anos depois da abolição da escravatura, o que despertou no diretor a vontade de dialogar com o agora: “o que disso ainda permanece, com quais caras, e quais as consequências históricas disso?” O espetáculo foi indicado ao Prêmio Shell na categoria Direção e venceu Melhor Figurino para Eder Lopes.

Por Brunow Camman
06/04/2026 16h36

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