A importância da memória e o Festival de Curitiba

foto: Annelize Tozetto
foto: Annelize Tozetto

O resgate da história sob novos olhares foi um dos temas mais discutidos na coletiva de imprensa do Festival de Curitiba nesta terça-feira (07). Espetáculos que tratam da memória de povos originários, de artistas que sofreram por sua arte, e até o reencontro do amor, se destacaram. A presença de representantes da Funarte (Fundação Nacional das Artes), que completou 50 anos, e da fotógrafa Lenise Pinheiro, coroou o tema.

“Visita a Domicílio”

Uma coprodução entre Brasil e Argentina estreia no Festival de Curitiba: a peça “Visita a Domicílio”. O elenco tem o brasileiro Cícero de Andrade e o argentino Juan Tellategui, com texto de um nome potente da dramaturgia contemporânea portenha, Alberto Romero. “O texto fala de encontros, desencontros e reencontros”, comentou um dos diretores, Zé Guilherme Bueno, ao lado de Miguel Arcanjo.

No espetáculo, dois homens que se separaram após um romance, se reencontram 20 anos depois. Pensar no que poderia ter sido, ou o que não foi, movimenta o encontro. “Esse ‘e se’ que dispara, e de repente, esse amor chega”, comentou Cícero. A estreia internacional da montagem acontece no Teatro do Paiol, dias 07, 08 e 09 de abril, às 18h30.

“Plumage”

A Noite vira personagem em outro espetáculo que dialoga com a América Latina. “Plumage” (com sessão no Paiol dia 12, às 15h) nasce de pesquisas de povos originários, como os Yanomami, e suas lendas. “Esses mitos são possibilidades de abraçarmos nossa realidade sob outras perspectivas”, explica o diretor Cadu Cinelli. “Nada melhor do que a Noite pata encaminhar a gente para os sonhos”. A atriz Ailén Roberto iniciou o projeto com lendas do povo Calchaquí da Argentina, e busca com a peça – ideal para crianças e adultos – reconectar as pessoas com a natureza.

Família

Já em “Atrás das Paredes”, acontece um movimento de revelar dolorosas relações familiares. A Cia Plágio de Teatro conta uma história que reflete muitas outras pelo Brasil, de violências que são escondidas e criminosos que passam impunes por causa da família. “O autor (da peça, Santiago Serrano) consegue, através do teatro, expor as mazelas do ser humano”, explicou o ator Chico Sant’Anna. A atriz Bianca Terraza complementou: “existe um modelo de família tradicional que é usado muitas vezes para justificar coisas que não tem justificativa”. Em tempos de notícias constantes de feminicídio e de crescente cultura machista, o grupo propõe essa crítica.

Funarte

A Fundação Nacional das Artes (Funarte) completa 50 anos, e uma das ações para esse marco é o lançamento do livro “Teatro Oficina – Fotografias de Lenise Pinheiro – Vol. 2” no dia 07, no Festival de Curitiba. Lenise foi reconhecida pela entidade como Mestra das Artes, com destaque para seu grande acervo de fotos de teatro no Brasil. O resgate ao material artístico produzido no país é um dos tópicos de maior relevância à Funarte atualmente, que ampliou o quadro de coordenadores em função de pesquisa histórica. “A memória é o futuro”, afirmou o presidente substituto da entidade, Leonardo Lessa. A fala converge com a instituição da Política Nacional das Artes, cujo decreto aconteceu no dia 30 de março – mesma data da abertura do Festival de Curitiba.

“Bailarinas Incendiadas”

A coletiva encerrou com a equipe da peça argentina “Bailarinas Incendiadas” – em cartaz no Teatro Cleon Jacques nos dias 09 e 10 de abril, às 20h30. A partir de histórias de bailarinas que se acidentaram e até morriam com a iluminação a gás dos teatros em meados do século XIX, a diretora Luciana Acuña dialoga com o presente. A trilha contemporânea contrasta com o resgate histórico, criando algo novo dessa tensão. “Que venha o espectador, que sinta a obra, porque o corpo está em primeiro plano, e que o público sinta no seu próprio corpo as ‘Bailarinas Incendiadas’”, concluiu.

Por Brunow Camman
07/04/2026 18h01

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