2112: a história do álbum que a gravadora não queria e acabou salvando o Rush

Foto: Steve Rose
Foto: Steve Rose

Hoje é difícil imaginar alguém dizendo ao Rush que talvez fosse melhor abandonar músicas longas e apostar em algo mais simples e comercial. Mas, em 1975, esse era justamente o cenário enfrentado pela banda. Depois de um álbum que não teve o resultado esperado, o futuro do grupo era incerto e a gravadora queria uma mudança de direção.

O Rush fez exatamente o contrário.

Lançado em abril de 1976, 2112 nasceu em um momento decisivo da carreira de Geddy Lee e Alex Lifeson. Era o quarto álbum de estúdio do grupo e sucedia Caress of Steel, trabalho lançado no ano anterior que aprofundava a aproximação da banda com composições longas e estruturas mais complexas.

O problema é que a resposta comercial não acompanhou a ambição do projeto. A situação colocou pressão sobre o próximo passo do Rush. A Mercury Records não queria que a banda insistisse em outro trabalho baseado em grandes composições conceituais e havia uma expectativa por músicas menores e mais acessíveis.

A banda resolveu seguir na direção oposta.

Se fosse para dar errado, seria fazendo o que eles queriam

Em vez de tentar encontrar uma fórmula mais comercial, o Rush decidiu apostar ainda mais na identidade que estava construindo. O resultado começa com uma composição de mais de 20 minutos, dividida em sete partes e ocupando um lado inteiro do LP.

Era 2112.

Ambientada em um futuro distópico, a história apresenta uma sociedade controlada pelos sacerdotes dos Templos de Syrinx, responsáveis por determinar aquilo que as pessoas podem consumir, aprender e até ouvir. Nesse mundo, um homem encontra um antigo instrumento e descobre sozinho a possibilidade de criar música.

Ao tentar apresentar sua descoberta às autoridades, percebe que não existe espaço para aquilo que foge do que foi estabelecido.

A história transformava a faixa em algo maior do que uma demonstração da capacidade técnica do Rush. Liberdade individual, controle e, principalmente, o direito de criar estavam no centro da narrativa. Não deixa de ser curioso que justamente um disco feito enquanto a própria banda sofria pressão para mudar sua maneira de criar tenha começado com uma história sobre alguém lutando para fazer sua música ser ouvida.

20 minutos que mudaram tudo

Musicalmente, “2112” também ajudou a definir aquilo que o Rush se tornaria. A faixa passa por diferentes atmosferas, mudanças de andamento, momentos pesados e trechos mais introspectivos ao longo de suas sete partes: “Overture”, “The Temples of Syrinx”, “Discovery”, “Presentation”, “Oracle: The Dream”, “Soliloquy” e “Grand Finale”.

O próprio Alex Lifeson definiria 2112 anos depois como o primeiro disco no qual eles realmente soavam como Rush.

E havia uma razão para tamanha segurança quando chegaram ao estúdio. Boa parte do material havia sido escrita enquanto o grupo estava na estrada. As músicas eram desenvolvidas em camarins, carros e vans e chegaram a ser ensaiadas durante passagens de som antes das gravações.

Quando entraram no Toronto Sound Studios ao lado do produtor Terry Brown, portanto, o Rush sabia exatamente o que queria fazer.

Mas 2112 não é inteiramente conceitual

A fama da faixa-título é tão grande que existe uma confusão comum sobre o álbum. Apesar da suíte ocupar todo o primeiro lado do LP, 2112 não mantém sua narrativa durante o disco inteiro.

O segundo lado reúne cinco músicas independentes: “A Passage to Bangkok”, “The Twilight Zone”, “Lessons”, “Tears” e “Something for Nothing”.

Era uma estrutura que permitia ao Rush colocar sua composição mais ambiciosa no centro do projeto sem abandonar músicas mais curtas. Dois anos depois, a banda voltaria a trabalhar com uma configuração semelhante em Hemispheres, novamente reservando grande parte de um álbum para uma composição épica.

O risco virou sucesso

Se a intenção da gravadora era evitar outro desespero comercial, o Rush provou que existia outro caminho.

2112 tornou-se o grande ponto de virada da banda. Foi o primeiro álbum do Rush a alcançar o Top 100 da parada norte-americana e também o primeiro a conquistar um disco de ouro nos Estados Unidos. Posteriormente, chegou à marca de tripla platina no país.

No Canadá, o álbum também conquistou platina.

O sucesso mudou o tamanho da banda na estrada. A turnê terminou com três noites no histórico Massey Hall, em Toronto, em junho de 1976. As apresentações foram gravadas e deram origem ao primeiro álbum ao vivo do grupo, All the World’s a Stage, lançado ainda naquele ano.

Mais importante do que os números, porém, foi o que aconteceu depois deles: o Rush conquistou liberdade.

O próprio material oficial da banda define 2112 como o álbum que permitiu ao grupo traçar seu próprio caminho dali em diante. Em vez de provar que precisava se tornar mais comercial para sobreviver, o disco mostrou justamente o contrário.

O álbum que poderia ter dado errado salvou o Rush

2112 acabou se tornando um dos trabalhos mais importantes da história do Rush e abriu caminho para uma sequência que incluiria A Farewell to Kings, Hemispheres, Permanent Waves e Moving Pictures.

O que torna sua história ainda mais simbólica é que o álbum nasceu justamente quando havia pressão para a banda diminuir suas ambições.

O Rush recebeu o recado de que não deveria insistir em outro projeto conceitual. Respondeu colocando uma música de 20 minutos ocupando um lado inteiro do disco.

Funcionou.

Cinco décadas depois, 2112 continua sendo lembrado não apenas como um dos grandes clássicos do rock progressivo, mas como o momento em que o Rush descobriu que seguir a própria identidade poderia ser justamente aquilo que garantiria seu futuro.

Rush em Curitiba

Mais de cinco décadas depois do lançamento de 2112, o público curitibano terá a oportunidade de ver essa história ao vivo, pela primeira vez. O Rush chega a Curitiba no dia 22 de janeiro de 2027, na Arena da Baixada, com a Fifty Something Tour. O show terá o formato “An Evening With”, dividido em dois sets, e marca o retorno da banda ao Brasil após mais de 17 anos. Os ingressos estão à venda pela Eventim, a partir de R$ 222,50.

O show do Rush em Curitiba tem o Curitiba Cult como media partner oficial.

SERVIÇO – Rush em Curitiba

Quando: 22 de janeiro de 2027 (sexta-feira)

Onde: Arena da Baixada (Rua Buenos Aires, 1260)

Horário: 20h

Quanto: a partir de R$ 222,50

Vendas: via Eventim

Por Augusto Tortato
02/09/2026 15h49

Artigos Relacionados

Marcelo Falcão revisita sua história na turnê “O Legado”

“Sempre atravessei os limites”: Ney Matogrosso anuncia show em Curitiba na Arena da Baixada