“Rápido, olha as meias”, disse meu amigo. Enquanto eu metralhava palavras, quase perco a tal senhora. Falei demais, não consegui pegar o detalhe que queria, mas ok. Poderia ter sido pior.

Eu chamo o Raul para fotografar sempre que vou para a rua. Na maioria das vezes, ele aceita. O peste diz que não entende de moda, mas que pode resumi-la em conforto. Não acredito nesse “não entendo”, pois, na verdade, a moda é fruto da interpretação do meu e do seu olhar.

Geralmente, também duvido daquele “cada um usa o que quer”. Não mesmo, até eu sou manipulada. E não, isso não é coisa da mídia ou só da “blogueira hit do mês”. Já sei, vem da composição e transformação de tudo aquilo que você vê, viu, sente e sentiu. Ok, agora, pode até ser que cada um use o que quer. Dane-se. Chega de pensar sobre isso.

Voltando ao Raul. É engraçado. Eu sempre falo para ele: “se eu perder alguém bacana, me avisa”, “essa roupa tá boa?”, “e se eu fosse com essa?”. O que ele responde? “Eu nem imagino, mas deve ser boa”. E não tem “seria cômico se não fosse trágico”. Essa é realidade, a nossa moda é uma belíssima suposição e sempre é contraditória.

São pequenos detalhes, como as meias ou as respostas do Raul, que sustentam o mistério e a graça do “o que é moda para você?”. Gosto da peça difícil. Nas fotos, a bicicleta completa a personalidade de quem usa, aliás, onde ela foi encontrada? A maleta do senhor de azul parece ter muita história. O suéter com cores pasteis, do moço de boina, me lembra o Cartola, é a cara do Brasil charmoso. Já o moço de terno me dá esperanças: o clássico puro passou de geração. As meias da mulher de vermelho talvez sejam recortes de 1980 e da quebra do tabu no traje feminino, como se fosse coisa de Yves Saint Laurent.

É para rir, chorar ou para pirar. Aliás, pode até ser para se perder e acabar entendendo “nada”. E eu fico imaginando o que você, leitor, entende por trás de tantas aspas. Na verdade, “eu nem imagino, mas devem ser coisas boas”. No fundo, a moda provoca uma tremenda confusão, como eu escolho as pessoas que aparecem na minha coluna? Provavelmente porque elas são versões humanas desse texto. Provavelmente porque provocam a sua interpretação. Provavelmente porque não estão nem aí para saber “o que é moda para você?”.

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Fotos: Uliane Tatit