O jovem Gareth Michael Coombes tinha apenas 9 anos quando retornou ao Reino Unido. A família Coombes, apesar da sua origem britânica, havia vivido 4 anos na costa oeste dos EUA, em São Francisco. Agora, de volta a Oxford, Gareth tinha toda a sua vida pela frente. Assim, logo ele foi matriculado na Wheatley Park School, uma escola próxima de sua casa. Não é preciso muito esforço para imaginar o tipo de problema que uma criança enfrenta quando encontra um ambiente recheado de pessoas completamente novas, ainda mais se for um ambiente escolar. Felizmente, Gareth também encontrou pessoas interessadas em sua amizade – e não só em tirar sarro. Foi aí que Daniel Robert Goffey, um garoto dois anos mais velho, e ele se aproximaram.

Gareth e Daniel tinham uma paixão em comum: a música. Daniel era baterista e Gareth, que tocava piano, aos poucos descobria o mundo da guitarra. Com o irmão de Daniel, Nic Goffey, na guitarra e, no baixo, Andy Davies, eles montaram uma banda. Com integrantes ainda adolescentes, eles conseguiram lançar um single pouco antes do fim do grupo, em 1992. Essa poderia ser a história da banda The Jennifers e da sua canção ‘Just Got Back Today‘. Porém, Gareth e Daniel – que ficariam famosos como Gaz Coombes e Danny Goffey – não desistiriam naquele momento. Pelo contrário, esse foi o início de uma das bandas que mais marcaram e surpreenderam a década de 1990 com sua imensurável e frenética energia aliada a sua ótima capacidade musical. Por isso, essa não é a história do The Jennifers, mas sim do Supergrass.

Após o término dos Jennifers, Gaz precisava se arranjar e por isso começou a trabalhar numa rede local de restaurantes. Apesar de não estar diretamente ligado com a música nesse período, foi aí que ele conheceu o baixista Mick Quinn. Mick, alguns anos mais velho, também começara a se interessar por música ainda muito jovem e, além de compartilhar o seu gosto musical com o do Gaz, também era um músico experiente. Gaz e Danny logo começaram a freqüentar a casa de Mick para ensaiar e não demorou para que eles montassem um trio chamado ‘Theodore Supergrass’, em 1993.

O nome “Theodore” logo foi deixado de lado e a banda começou a construir o seu som, com elementos do rock sessentista e do punk, sem perder a originalidade e a energia que os anos 1990 trouxeram. Um ano depois, em 1994, Gaz, Danny e Mick começaram a chamar a atenção do mundo. Por um pequeno selo de Oxford, o Supergrass lançou seu primeiro single. ‘Caught By the Fuzz‘, a história de um jovem de 15 anos – provavelmente o próprio Gaz – que foi pego pela polícia com maconha. O embalo da guitarra distorcida, a precisão do baixo e a força da bateria formam um som extremamente contagiante, que transmite a energia daqueles jovens com muita verdade e força. O potencial deles estava tão latente que a Parlophone Records – que experimentaria um sucesso inicial de uma banda que eles não tinham desde os Beatles – os contratou. O trabalho deles começou a revelar a sua consistência conforme seus ótimos singles faziam sucesso. ‘Mansize Rooster‘, ‘Lose It‘ e ‘Lenny‘ foram músicas que antecederam o primeiro disco da banda e que, também, se tornariam clássicos entre os fãs. Backings vocals altos que ajudam a dar ritmo as músicas, o uso do drive e do recurso de abafar as cordas da guitarra, os arranjos que também contam com teclas, tudo em harmonia, com músicos mostrando sua energia e competência. A produção, por ter sido capaz de captar nos estúdios a essência da energia daqueles três jovens de maneira tão natural, também merece destaque.

No dia 18 de julho de 1995 foi lançado um dos mais empolgantes discos de estreia da história do rock. I Should Coco confirmou o que os singles prometiam e fez do Supergrass um dos grandes ícones da música daquela época. A excelente faixa de abertura ‘I’d Like To Know‘ e o mega hit ‘Alright‘ se juntam aos singles na primeira parte do disco. Disco que praticamente não deixa a rotação frenética cair. Pancadas com ótimas construções e variações de dinâmica, como ‘Strange Ones‘ e ‘Sitting Up Straight‘, embalam a audição.

Conforme o disco se aproxima do final, o Supergrass começa a dar indícios de quais caminhos eles seguiriam no futuro. A sonoridade se mantém em composições que trazem algumas características e intenções diferentes. ‘She’s So Loose‘ trás mais tensão e seriedade, ‘We’re Not Supposed To‘ esconde uma história de amizade – talvez, um pouco da história da própria banda – nos efeitos vocais. As baladas, uma rock e outra psicodélica, ‘Time‘ e ‘Sofa Of My Lethargy‘ também marcam presença. O disco se encerra com, literalmente, uma despedida em ‘Time To Go‘.

A parte final do disco da dicas dos próximos passos do Supergrass pois no momento em que eles poderiam ter se perdido no universo pop, mantiveram-se firmes na sua caminhada musical. Da Calvin Klein ao Steven Spielberg, muitos foram os convites e as propostas que o trio recebeu para explorar a sua imagem. Mas eles estavam certos que poderiam ser muito mais do que eles haviam mostrados até então. O Supergrass continuou lançando discos e fazendo shows, assim conseguindo deixar um legado musical até hoje relevante e, também, impressionante, por se tratar de pessoas tão jovens fazendo música com tanta energia e competência de uma maneira sedutoramente explosiva.

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