Todo dia eu passo em frente ao seu prédio e… aumento o volume da minha música até estourar os ouvidos e paro por alguns segundos, vai que você sai do portão e a gente se esbarra? Mas não.

É sempre vazio, ninguém sai de lá. Só vem o vento do portão da garagem, aquele que a gente sempre desce se beijando no escuro.

Finjo que sou forte, mas dura tipo um nano segundo, então me rendo, levanto a cabeça e olho pra janela da sua sala, numa dessas você está entediado e quer ver o mundo lá fora, então o sol bate nos seus olhos e você tem que desviar e de repente me vê lá embaixo, e ai meu deus, é ela. Também não…

Por último olho pra janela do seu quarto, você pode estar tocando em um dos seus dois violões – qual será? – e cantando com a sua voz rouca, aquela que já ouvi nas músicas que cantou pra mim. Ou está deitado em sua cama encarando o teto e pensando se a vida é isso mesmo tudo que está sendo, ou porque está tudo um pouco errado e meio torto, confuso talvez.

É. E eu… eu fico olhando pro seu prédio. Para a sua janela. Pro sexto andar. Para tentar te achar, tentar de ver, te ouvir, qualquer porcaria dessas que a gente faz pra ter aquela felicidade inventada.

E, droga, é verão, minha época favorita, quer fazer o favor de sair da minha cabeça? Desocupa, por favor? Passo o dia todo te expulsando de mim, mas não mudo o caminho nunca, só pra ter 1% de chance de te ver entrando ou saindo do portão, esbarrar em você, cair em você, passar reto por você, você sorrir, você nem me ver ou te olhar e ir embora, olhar para trás e dar risada, olhar para trás e correr na sua bicicleta, parar e conversar, te olhar e te beijar, te olhar e não saber o que dizer ou nem sorrir mesmo.

Mas não te vejo porcaria nenhuma. Amanhã é outro dia. Amanhã tento de novo.