Quem é Neil Young? Mestre do folk, padrinho do grunge, icone da contracultura, ambientalista, revolucionário. Neil Young é isso e muito mais porque ele sempre escolheu a direção para os seus passos. Trata-se de um cara que participou de Woodstock, mas não aceitou aparecer no filme por desconfiar do interesse comercial por trás da revolução. Desde os anos 1970 é um ambientalista preocupado com o futuro do planeta. Até hoje se posiciona e faz música com conteúdo político e contra grandes corporações — como Monsanto e Starbucks. Recentemente iniciou uma empreitada em favor da qualidade do áudio e lançou até um aparelho de reprodução de alta qualidade. E, como eu disse, Neil Young é muito mais.

Uma das faces mais fortes dele está presente em três discos lançados nos anos 1970 e que seriam conhecidos como a ‘ditch trilogy’: Time Fades Away, Tonight’s The Night e On The Beach. Isso porque ele vivia dias difíceis, e todos seus sentimentos transbordam nesses três álbuns. Era uma época em que o Neil experimentava o lado ruim fama. Carregando o peso de perder o grande amigo e companheiro de banda, o guitarrista Danny Whitten, numa overdose de heroína, Neil buscava se expressar de forma mais crua após o sucesso do Harvest. Muito mais triste, indignado e desiludido, esses discos se traduzem num relato pessoal e honesto. Em 1973, Neil Young lançou o On The Beach, que, apesar de ser o segundo disco da trilogia a ser lançado, foi o último a ser gravado.

On the Beach é um desabafo de alguém triste com as coisas do mundo e com as suas próprias coisas. Cada faixa tra\ uma face da angustia, misturando euforia e serenidade. Escutar o disco inteiro dá a sensação daquela montanha-russa de sentimentos, típica de uma cabeça com problemas demais. E tem dias que tudo incomoda: o futuro, o presente, a destruição da natureza, o Charles Manson, o Nixon, o relacionamento com a mulher. Enfim, às vezes as coisas são duras.

Nesse disco a gente percebe algumas músicas serenas e melancólicas. ‘Montion Pictures’, por exemplo, é uma balada que fala sobre seu relacionamento com a atriz Carrie Snodgress, mãe de seu primeiro filho. Com a participação do inacreditável Levon Helm na bateria, ‘See the Sky Is About Rain’ é uma musica pessoal com um piano elétrico que dita o clima e o ritmo. Esse piano elétrico não é o único instrumento a fazer uma participação especial. O banjo de ‘For The Turnstiles’ é um dos pontos altos do disco e define o ótimo e simples arranjo da canção.

Esse disco também tem muita energia e raiva. Muito disso está nos blues desse álbum. Escute ‘Revolution Blues‘, que, além de contar também com a participação do Levon, tem o ótimo baixão do Rick Danko. A voz do Neil Young guia essa pancada que critica as insanidades, assassinatos e mentiras à la Charles Manson. Outra crítica forte e certeira está em ‘Vampire Blues’. O ano era 1973 e o Neil já dizia que destruir o mundo pelo progresso é uma conta que não fecha. Estamos falando de identificar uma tendência com uns 30, 40 anos de antecedência. Incansável, o disco termina com ‘Ambulance Blues‘, em que Neil mostra sua insatisfação com Richard Nixon. Repare na manchete do jornal presente na capa do disco: ‘Senator Buckley Calls for Nixon to Resign’. É quase inacreditável que esses três blues, juntos, caibam num mesmo disco.

https://www.youtube.com/watch?v=cAKTy_9Yok0

Porém, o ponto alto está em duas músicas. Na faixa que abre o disco, ‘Walk On’, e na faixa que dá nome ao disco, ‘On The Beach’.

‘Walk On’ fala não só sobre seguir em frente, mas também sobre a dificuldade disso. O swing e o slide das guitarras podem até fazer dançar, afinal, cedo ou tarde tudo torna-se real. Já ‘On The Beach’ é um desabafo. O arranjo e a percussão criam o clima de desilusão e incerteza que Neil Young sentia na época. A letra é daquelas de uma sinceridade que choca. Num disco com frases fortes, temos uma pérola aqui também: ‘though my problems are meaningless, that don’t make them go away’. A combinação dos sentimentos e das incertezas presentes nas duas músicas revelam muito sobre a tristeza que Neil sentia e, consequentemente, sobre a tristeza que todos nós sentimos.

On The Beach é um discão. É forte, preciso e verdadeiro. Sua sonoridade crua, quase ao vivo, cria uma atmosfera ainda mais intensa para a obra. Lá estava Neil Young, no meio dos 1970, entre o álcool e as honey slides, tentando entender tudo o que não parava de passar na sua frente.

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Até semana que vem!