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Pirou de vez. O que a Operação Lava Jato tem a ver com feminismo? Olha, amigos, vejam vocês: tudo tem a ver com feminismo. Hoje, vamos retratar um pouquinho o machismo no jornalismo, na política e até mesmo em atividades criminosas. Essa coluna foi construída por meio de conversas de bar com minha grande amiga Katna Baran (<3)  que participou dos depoimentos da CPI da Petrobras em Curitiba e trouxe, entre uma cerveja e outra, várias discussões que não vimos por aí. Portanto, além de Laurices, teremos Katnices. Se arruma na cadeira que lá vem textão. Agora, vamos aos fatos:

A Operação Lava Jato escancarou (ou vem escancarando) um dos maiores esquemas de corrupção do Brasil. A investigação inicial mirou nos principais doleiros do país, mas logo chegou a grandes empreiteiras e diretores da Petrobras, revelando uma fonte de recurso que abasteceu campanhas eleitorais e partidos políticos. Tudo leva a crer que muita água (leia-se gente) vai passar por essa lavanderia.

Com as denúncias pipocando pra lá e pra cá, prontamente, os parlamentares montaram a CPI da Petrobras. Na teoria, apesar de possuir grandes poderes, como de quebra de sigilos, a Comissão tem como objetivo geral encaminhar suas conclusões ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos acusados. Na prática, é uma boa tática de promoção da imagem dos próprios parlamentares. E só.

No início de maio, alguns deputados membros da CPI da Petrobras estiveram em Curitiba para coletar depoimentos de 14 investigados da operação que estão presos na capital. Compreensível. Realmente sairia muito caro para os cofres públicos providenciar transporte e escolta de cada um deles para Brasília. Pode-se questionar, porém, a real relevância dos depoimentos, visto que a maioria se calou diante dos parlamentares.

Uma das “vítimas” dessa insistência foi a doleira Nelma Kodama. Ao contrário da maioria, ela topou falar, mas ninguém a ouviu de verdade. Se estivessem de fato investigando, atentariam para a importância do seu depoimento. Apontada como chefe de um dos núcleos investigados pela Lava Jato, Nelma operava no mercado negro de câmbio e chegou a oferecer ajuda aos parlamentares para identificar os “furos” na legislação financeira do Brasil.

Em três horas de depoimento, ela citou pelo menos cinco vezes os “problemas do sistema”. “Qual é o maior doleiro: eu, o Banco Central ou as instituições financeiras? Enquanto não tirar o mal pela raiz, que está no sistema, isso não vai acabar”, soltou. Ninguém ouviu. Mas quando ela cantou “Amada Amante” (em coro com alguns deputados, diga-se de passagem) para tratar de sua relação com o doleiro Alberto Youssef, todo mundo ouviu.

Mesmo representando 1% do depoimento, a sentimentalidade da doleira-amante foi destaque na mídia nacional e alvo de reflexões psicológico-amorosas. Flávio Freire, do O Globo, destacou que ali estava uma mulher que não queria falar sobre os crimes que cometeu, mas chamar a atenção para o seu “coração partido”. “O foco era o homem que parece ter-lhe abandonado”, escreveu. Xico Sá, no El País, perguntou: “Os corruptos também amam?”.

Vamos, agora, à resposta:

Olha, se os corruptos amam, não vem ao caso. Sabemos que, em meio a tantas besteiras ditas na Lava Jato, o tratamento dedicado à doleira Nelma Kodama mostra exatamente como são tratadas as mulheres na sociedade – na mídia, no crime, na esquina de cada rua. Nas palavras de uma amiga, “é aquela velha história de exotificar uma mulher que comete um crime, que ela fez aquilo por impulso do coração, por amar ou odiar algum homem”. Mas será possível que, até mesmo para realizar operações fraudulentas que exigem, no mínimo, um amplo conhecimento do sistema financeiro e político brasileiro, uma mulher precisa fazê-las por um homem? Não existiram outras dezenas de razões?

Exaltaram sua magreza, já que o próprio Google completa com Nelma emagreceu quando se pesquisa o nome da doleira, seu cabelo Joãozinho – especularam se havia piolhos na cadeia –, falaram sobre sua fé, ao vê-la com um terço nas mãos e trataram dos euros na calcinha. “Na calcinha, não!”, respondeu Nelma, que acredita que, “como já havia uma história de dólar na cueca”, precisavam enfiar algo na calcinha de uma mulher. Sugestivo.

Não cabe aqui julgar seus atos ilícitos – isso a Justiça já está fazendo (ela já foi condenada por alguns crimes e responde por tantos outros). Tudo aponta que ela era uma das cabeças do esquema, fez centenas de operações fraudulentas, movimentando muito dinheiro. Fato é que, ao resolver escancarar a palhaçada de uma CPI, diminuíram seu depoimento em estereótipos como o da mulher fatal, fútil, que age por impulso, a conhecida mulher-instrumento. Há dois fatos aí: primeiro, o da mulher-doleira-apaixonada-fútil-instrumento e, segundo, a tentativa clara de esconder algo de extrema relevância para a CPI da Petrobras. Quem é o maior doleiro: a Nelma ou o sistema?