Você lembra do Fábio? É, o Fábio, aquele do filme do Tim Maia. O músico e parceiro inseparável – além de narrador da trama – interpretado pelo Cauã Reymond. Primeira coisa que precisa ser dita: ele não é um personagem fictício (como li por aí). Ele existe sim! Fabio Stella, cantor paraguaio radicado no Brasil, estava vivendo num ostracismo danado até o lançamento do filme. Ele escutou o conselho de um amigo e autorizou o roteiro lá da sua fazenda, no sudoeste da Bahia. Seria uma oportunidade para voltar a ter a atenção do público. Isso porque, além de namorar a Suzy, viajar para Londres e curtir várias trips com o Tim Maia, o Fabio era um baita cantor. E é aí que eu quero chegar. Mas calma, antes vamos dar um pulinho ali em Nova York.

Joel Stones. Um paulista que chegou em Nova York (via Miami) em 1998 com menos de $200 e seu nome. E nada mais. Isso segundo o site da sua loja de discos – a Tropicalia in Furs – que tem um site tão descolado que, caso você não tenha um óculos daqueles, você terá que se contentar com a versão 2D ‘not cool enough for 3D’. O Joel batalhou muito lá pelos EUA: juntou muitos discos, montou sua loja e hoje tem uma banda ótima chamada “Fumaça Preta”. O nome da loja e da banda já dão algumas dicas das referências musicais do Sr. Stones. Se você escutar o primeiro lançamento dele – a música ‘Bruxa’ lançada em 2012 – vai sentir um gostinho de um Brasil diferente. Ou o gosto das garagens psicodélicas do Brasil dos anos 1970.

Talvez esse gosto seja exótico para muitos. Afinal de contas, muitos sons dessa época só são um pouco conhecidos hoje graças ao próprio Joel. Isso porque o cara nunca parou de buscar novos discos, inclusive nas suas excursões por terras brasileiras. Ao longo de cinco anos, Joel juntou um material de primeira e muito raro. Muitos compactos de bandas de rock capazes de virar a cabeça de qualquer amante da psicodelia dos anos 1960 e da explosão dos anos 1970. E muitas dessas músicas eram totalmente obscuras, alguns discos sequer foram tocados pelos radialistas.

Uma coleção incrível, muito swing e estilo, uma capa louca (em 3D, que nem o site – realmente cool, não?),  finalizada com a doideira que rolou aqui na “terra do samba”: assim nasceu a inacreditável coletânea Brazilian Guitar Fuzz Bananas! O nome da coletânea em si já explica muito do que vem por aí. Psicodelia, fuzz, funk e Brasil. Se Mutantes é o mais distante que você consegue pensar sobre rock nacional, vamos dar um passo adiante!

Essa coletânea é um prato cheio para quem quer conhecer mais sobre alguns artistas que não conseguiram fama junto ao grande público, mas que produziram sons realmente interessantes, inventivos e experimentais. O disco comprova a capacidade do Brasil de absorver influências externas sem perder a originalidade verde e amarela. De versões de Beatles e Stones, passando por citações a Jimi Hendrix até ao rock britânico e americano feito ao estilo brasileiro. Para quem curte essa linha de música, esse disco resume-se a uma surpresa atrás da outra. É um mundo novo recheado de sonzeiras que se abre.

A prova da ousadia nessas misturas vem logo de cara, na faixa de abertura: a história de Batman no espaço sideral, num clima de perseguição policial extraterrestre, microfonia, barulhos, bateria, sujeira. É Batman que se aproxima! É hora de tirar o time de campo! HEY! Ufa, é de perder o fôlego. Respire fundo!

As surpresas surgem faixa a faixa. Como a ótimaCinturão de Fogo, da Marisa Rossi. Melodia contagiante, som dançante, timbres de voz e do orgão incríveis. Um baita hit, se me perguntarem. Tem tambémO Carona, do Tony e o Som Colorido e seu refrão altamente cantante. Se estiver procurando o tão falado fuzz, experimenteGod Save The Queen do 14 Bis – antes que você pergunte, não é aquela famosa banda mineira que você está pensando. Mas se esse fuzz é muito sujo para o seu gosto, prefere uma pegada mais Gil, Caetano, Tropicália, tente a Herói Moderno, do Pery, e não vai se arrepender. Isso sem falar da ótima versão dos Youngsters de ‘I Wanna Be Your Man – admito, uma das minhas versões preferidas dessa música. Preciso abrir um parenteses nesse disco para dizer que a versão deles de Ticket to Ride, dos Beatles, é ótima. Afinal, havia gente demais pra namorar. Tem também a versão da psicodelica The Lantern, dos Stones, do Mac Rybell. E o Fábio? Ele também está presente, claro! Faltou o Cauã cantar ‘Lindo Sonho Delirante’ no filme. Sim, podemos usar a abreviação LSD. E o que temos é uma ótima canção de rock lisérgico.

Essa esteira de surpresas nos faz pensar em quanta coisa que aconteceu que se perdeu e talvez não seja mais recuperada. Muitas dessas pérolas, até pouco tempo atrás, eram totalmente desconhecidas. E o que temos são músicas ótimas que merecem ser escutadas. Por isso não perca tempo!

É natural romantizar a Londres dos anos 60, com o John Lennon conversando com o Mick Jagger num circo (sim, eu queria muito ter estado lá). Mas é genial imaginar que existiu uma cena tão rockeira quanto a deles aqui no Brasil, e de um jeito bem brasileiro. Um pessoal fazendo música de qualidade, sem medo de misturar e arriscar. Por isso considero a coletânea Brazilian Guitar Fuzz Bananas ainda mais especial. O Fabio, que hoje leva uma vida bem simples na fazenda, está aí para nos lembrar que o rock aprendeu a falar português ainda bem jovem.

Brazilian Guitar Fuzz Bananas – disco completo

  • NÃO É MAIS DIA 36
    Pilula musical para mudar de vibe:

    • Liquid Sound Company – Liquid Sound Freedom (2011) – woow

E aí, curtiu os sons? Explore os links e desvende mais músicas! Tem alguma dica de discão ou sonzeira? Comente! A música boa é infinita 🙂

Até semana que vem!