A CAIXA Cultural Curitiba apresenta a exposição Coisas existentes em função do desejo, do artista baiano Marcos Zacariades. A mostra abre no dia 08 de março e fica aberta à visitação até o dia 24 de abril, nas galerias Térreo e Mezanino.

A exposição é um conjunto de 12 obras, entre instalações, vídeos, esculturas e assemblagens. O trabalho pode ser lido como um percurso pela fronteira entre a ética e a moral contemporâneas. O resultado nasceu da observação do contexto da mineração na Chapada Diamantina, na Bahia, onde vive o artista – do cenário extrativista do garimpo de diamantes, do legado das minas exauridas em meados do século 20 e de minas que ainda se mantêm na região.

O projeto é fruto da residência artística realizada pelo artista no Bellagio Center, em Bellagio, na Itália, entre setembro e outubro de 2013, como artista convidado da Rockefeller Foundation. “O meu processo de criação envolve, na maioria das vezes, uma relação com o arranjo social em que vivo ou observo. Procuro investigar as questões humanas e percebê-las de acordo com o seu tempo e lugar, para, a partir daí, conceber e materializar as obras que exponho”, explica Marcos.

Na obra Sempre-viva (A cadeira do dentista), por exemplo, um buquê reúne 900 dentes coletados entre 2003 e 2005 no Posto de Saúde Municipal de Andaraí. Muitos dos dentes contêm um diamante incrustado no lugar da cárie que, possivelmente, motivou a sua retirada da dentadura anônima. Junto ao buquê está uma antiga cadeira odontológica, proveniente de um depósito da Prefeitura local, que guarda uma memória da quantidade de dentes arrancados naquela peça, dando outro significado à extração.

Já o vídeo Coisas existentes em função do desejo, que dá nome à exposição, apresenta imagens captadas entre 2004 e 2013 da festa do Divino, em Andaraí. No evento anual, um grande mastro de madeira, proveniente de uma árvore derrubada na região, é içado por uma procissão masculina. O ritual conjuga um misto de transe coletivo e euforia devocional.

O vídeo se relaciona com a obra Banquete de migalhas, composto por pequenos pedaços de madeiras nobres (jacarandá, aroeira, peroba, entre outras), coletados nas matas de Andaraí. Muitos dos fragmentos são restos de árvores derrubadas que, depois de polidos com esmero, exprimem um valor dúbio de resquício e de jóia.

O percurso do visitante chega à Carta de ABC, uma instalação na qual um tapete de mais de 70 máquinas de escrever torna-se um obstáculo à passagem até a fossa ao fundo da sala. Originalmente, a Carta de ABC é uma publicação de alfabetização que foi editada até meados do século 20, mas que continuou sendo impressa e distribuída com modificações, sobretudo nas regiões do Norte e Nordeste do Brasil até pouco tempo atrás. A instalação foi inspirada pela obra literária de Herberto Sales, Cascalho (1944), que disseca a vida dos garimpeiros e do mundo da mineração diamantífera nos anos 1930, o aprendizado rude de uma realidade miserável e violenta.

Apesar de toda a crítica voltada para um modelo social que foi consolidado nesses anos de exploração das lavras e da relação predatória do homem com a natureza, não se vê denuncismo ou revanche. “O que move todas essas criações é o sentimento de compaixão e amor ao lugar; não identifico vilões históricos, apenas os protagonismos no contexto e a na finitude destes objetos”, conclui o artista.

Serviço – Exposição: Coisas existentes em função do desejo – Marcos Zacaríades

Quando: 09 de março a 24 de abril de 2016

Onde: CAIXA Cultural Curitiba – Galerias Térreo e Mezanino (Rua Conselheiro Laurindo, 280)

Horário: terça a sábado, das 10h às 20h. Domingo, das 10h às 19h

Quanto: gratuito