Você está vestindo o seu melhor sorriso e ele nem pra aparecer. Faz dois meses que você passou a escolher muito bem cada roupa antes de sair de casa, resgatou aqueles LP’s com as músicas que ele escuta e até leu grande parte do que ele lê só para ter o que conversar com o cara. O pessoal da biblioteca bem que estranhou você trocar a sessão de romances pelos amontoados filosóficos recheados de palavras que você tem de correr pro Google pra entender. Quando a gente ama, nenhum sentido faz sentido.

E aí você espera um pouquinho como se já não tivesse esperado antes. Porque ele te deixou esperando na internet, deixou com que você quase gritasse o quanto queria beijar ele – porque ele nunca daria o braço a torcer. E você esperou tanto que ele te beijasse, sendo que na maior parte das vezes isso não aconteceu. Ele nunca nem ligou pra dizer um boa noite, até amanhã guria; não reparou que tuas unhas estão pintadas de vermelho; ou que hoje, mas só hoje, você prendeu a sua franja pra que ele possa analisar teu rosto por completo.

A droga do tempo passando te eleva para o próximo passo na noite naufragada: o conformismo. Você se convence de que ele não vai aparecer, que se arrumou por nada, que ele é alguém que nunca te mereceu. Você lembra de tudo que fez por ele – os mimos feitos a mão e as cartas de uma típica apaixonada da era Vitoriana. Mas deu, chega. Não precisa mais fingir gostar de Bossa Nova quando você adora um pop batido pra se deixar levar na balada.

Então é isso: acabou. Ele não vai aparecer e você vai é embora antes que qualquer conhecido te veja ali, sentada sozinha na mesa de uma cafeteria que você nem sabia existir no centro da cidade. Você vai embora se perguntando o quanto valeu a pena se entregar para acabar assim, sozinha. Mas aí você te lembra que, ao lado dele, tu sempre esteve sozinha também. Porque mesmo se esforçando para ser o que ele sempre quis (que erro!), ele nunca te deu valor.

Veja bem, você está vestindo o seu melhor sorriso e ele nem pra aparecer.