Parece estar virando rotina e confirmando assim a tal instabilidade presente na Netflix. Passa semana, entra semana e sempre somos agraciados por novos conteúdos produzidos pela empresa de streaming. Se por um lado grande parte destas novidades são produções realmente originais e de altíssima qualidade, seguimos a receber “bombas”. E é exatamente o que acontece com Death Note, um filme quase que injustificável de tão falho que é.

Death Note é um mangá japonês criado por Tsugumi Ohba em 2003 e transformado logo na sequência em anime. Assim como grande parte das obras que seguem este caminho, o sucesso foi inevitável e rapidamente espalhou pra todo lado. Os 37 episódios de excelente trama com detetives e perseguição envolvendo fatores sobrenaturais logo chamou a atenção do mercado cinematográfico. Lá no Japão alguns longas já apareceram, fiéis a origem, e agora foi a vez dos americanos se arriscarem.

É passível dizer que todos os caminhos escolhidos pela Netflix e demais envolvidos levavam ao desastre iminente deste Death Note. Incrível é como que nada disto foi notado, pois são muitos fatores cruciais para entender o fracasso que esse filme é. Começando pelas escolhas de diretor, roteiristas e atores; com nomes totalmente errados e inapropriados para tal.

A direção ficou com Adam Wingard, do mais recente e fraquíssimo ‘Bruxa de Blair’. A pegada de Wingard sempre foi num suspense/thriller de tensão como fez em ‘Vocês São os Próximos’ e ‘O Hóspede’. Desde que ele tentou ganhar notoriedade no terror, só vem cometendo vacilos. Aqui, não sabe se comportar na continuidade das cenas, fazendo cortes secos permeados com cores apáticas que parecem formar um retalho de acontecimentos ao invés de um filme. O roteiro passa longe de ajudar, mas muito longe mesmo. Foi desenvolvido pelos irmãos Parlapanides, com única experiência em ‘Imortais’ de 2011, e Jeremy Slater, do mais novo ‘Quarteto Fantástico’. Só com esse currículo aí já é difícil de imaginar que algo sairia nos conformes.

Não dá pra dizer que Death Note da Netflix é uma adaptação e muito menos uma homenagem ao trabalho japonês. Não funciona como filme avulso e nem como conexão válida à obra existente, nada orna aqui. A história se mantém a mesma: um garoto recebe um caderno que tem o poder de matar a pessoa que tiver o nome escrito ali, tenta assim se tornar um justiceiro e acaba sendo investigado pelo melhor detetive do mundo.

O roteiro apurou tanto os acontecimentos que é ilógico imaginar como tudo foi acontecendo. Realizaram mudanças drásticas na trama e na personalidade dos personagens, deixando a superficialidade reinar. A escolha de Nat Wolff, um dos piores atores na atualidade, pra viver Light é a prova suprema de quão desleixado o processo de montagem do longa aconteceu. Incorporando um ar abobado para um protagonista sábio, só as cenas dele gritando ao ver Ryuk descredenciam qualquer avaliação. As escolhas de Lakeith Stanfield e Margaret Qualley como L e Mia Sutton, respectivamente, se encaixam bem apesar da irracionalidade de ambos. A qualidade gráfica de Ryuk, shinigami responsável pelo caderno, junto da voz de Willem Dafoe talvez sejam os únicos acertos absolutos da produção.

A transformação de animes em live-action americano já vem se mostrando uma decisão bem errônea, graças aos sucessivos estragos feitos. Foi assim com o horrendo ‘Dragon Ball Evolution’ de 2009, aconteceu novamente com o recente ‘A Vigilante do Amanhã’ e não deve parar por aí. Já temos a confirmação de ‘Naruto’ e agora com este pífio Death Note. É uma obra que não serve pra nada, apenas para manchar a trama e trazer certo ar de vergonha alheia em algumas passagens. É uma pena conferir um trabalho tão belo como Death Note virar isso e mais triste ainda saber que foi pelas “mãos” da Netflix.

Nota: 1,5

Obs.: Como forma de consolação, todos os 37 episódios do anime estão disponíveis por streaming pela própria Netflix. Não deixe de assistir, vale muito a pena.

Trailer – Death Note