Esta lista foi feita para você, caro cidadão que come a coxinha pela bunda*. Ou, então, você que é adepto das coisas de cabeça para baixo: o feijão embaixo do arroz, o doce antes do salgado. Você certamente tem um gosto duvidoso, mas tem coragem para descobrir novos caminhos, construir narrativas doidas com estruturas insuspeitas. Por isso, acreditamos que você merece uma pequenina lista de livros que podem servir como referência teórica para provar que, SIM, há método nos caminhos escolhidos por você! Sinta-se abraçado, seu dia chegou.

*Atenção: comer coxinha pela bunda significa comer a coxinha ao contrário, não pela pontinha cheia de massa. Não estamos insinuando que existam pessoas que comam a coxinha… Bom, vocês entenderam.

1) Ilíada, de Homero

Como não começar esta lista por um grande clássico da Literatura Ocidental (assim, em maiúsculo mesmo, para deixar a coisa toda bem chique)? Pois você não inventou a roda, meu amigo, e desde a Grécia antiga já existia um pessoalzinho que era meio do contra. Veja a Ilíada, por exemplo, que é composta in media res! Essa pequena expressão vem do latim e significa “no meio das coisas”. Pois a Ilíada, que retrata todo bafafá que foi a Guerra de Troia (perguições, batalhas, treta entre os deuses e parentes), na realidade começa antes de seu início e encerra antes de seu fim. Os fatos que provavelmente você conhece sobre a guerra – Helena fugindo com Páris, o Cavalo de Troia – simplesmente não constam no livro. Assim como você gosta de pular etapas (a pontinha da coxinha), os gregos tinham um certo apreço por começar as coisas antes do começo. É um match!

Vale ressaltar que outras epopeias, como a Odisseia (o famoso retorno de Ulisses para casa depois da Guerra de Troia) e a Eneida (provavelmente a primeira fanfic da história da literatura) também trazem essa estrutura narrativa. Então, se você gostar da Ilíada, já sabe para onde rumar em seguida. Bon Voyage.

2) O jogo da amarelinha, de Júlio Cortázar

Quem gosta de comer a coxinha “por trás” certamente gosta de estruturas narrativas surpreendentes, livres, modernosas. O jogo da amarelinha serve tudo isso. Imagina estar na lanchonete com seus amigos, pós pandemia, pedir uma coxinha e quando todos começarem a te olhar com aquele olhar perscrutador, dizer: “Voces sabiam que um dos maiores autores argentinos escreveu uma narrativa que tem tudo a ver com quem come coxinha como eu como? Pois saibam que existe um livro IN-CRÍ-VEL chamado O jogo da amarelinha, um livro no qual existem capítulos prescindíveis, em que existe a possibilidade de se ler os capítulos com uma ordem doida, através de um tabuleiro de leitura? Pois bem, somos todos loucos, inovadores. O Júlio Cortázar e eu, que como a coxinha ASSIM. Beijinho no ombro”.

Você estaria coberto de razões. O livro de Cortázar, além da estrutura inesperada, conta a história tocante de Horácio Oliveira e Maga. Além de ter razão na mesa da lanchonete, você vai se alegrar e emocionar com uma história vibrante.

3) Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski

Além de não começar pelo começo e de apreciar narrativas inesperadas, quem come a coxinha pela ao avesso quer saber das coisas LOGO. Que se dane a massa excessiva da pontinha! Você quer o sabor do frango, o temperinho, o prazer. Se Dostoiévski viesse ao Brasil, certamente ele se juntaria a você no banquinho da rodoviária. Como diria Caio Fernando Abreu: “Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.

Neste romance magnífico, acompanhamos a história de um assassinato. Quem será o culpado? É isso que você descobre no primeiro capítulo do livro! De cara fica claro que o jovem Raskólnikov pretende matar a odiada usurária que mora no seu prédio e usar o dinheiro para bancar seus estudos. Raskólnikov faz isso porque tem o ego um pouquinho inflado e acha que é uma espécie de novo Napoleão Bonaparte (logo, estaria moralmente ok matar uma velhinha inutil e exploradora). Infelizmente, não é bem assim. O romance retrata não apenas o arrependimento e questionamentos políticos e morais do jovem, como também os caminhos e descaminhos que o chefe de polícia usa para entender quem é o assassino. Poderia ser alguém que come a coxinha ao contrário, mas na verdade é apenas um jovem russo do século XIX que publica manifestos políticos no jornal da cidade.

4) Às Avessas, de Joris-Karl Huysmans

Acho que o título do livro diz tudo, não é mesmo? Para finalizar nossa homenagem, fica aqui um intrigante romance francês do século XIX e que recebeu do grande Oscar Wilde uma crítica equivalente aos olhares que você recebe do tiozinho da feira: “Era o livro mais estranho que já lera.” O que esperar de um livro realmente às avessas, com um único personagem e sem enredo? Você sabe exatamente como é se sentir assim.

Des Esseintes, o personagem do livro, é um burguês entediado com a mesmice da vida burguesa. Ele vai embora de Paris e passa um tempo em Fontenay, cuidando metodicamente de uma casa. Acompanhamos seus delírios cômicos, divagações, pensamentos e críticas ácidas aos prazeres comuns (coisas bobas como colocar o arroz embaixo do feijão). Pode parecer loucura, mas também é, por vezes, uma intrigante proposta sobre olhar a vida de outro jeito, adotar novas perspectivas, permitir-se tentar as coisas de uma nova maneira – e disso você entende muito bem.

Aí está a lista, caro leitor. Já que você não tem como conhecer pessoalmente nenhum desses autores meio doidos, que adoram começar histórias da metade e inverter estruturas narrativas, que tal ler algum desses livros para se sentir um pouco mais representado nesse mundão? Pois é isso. Boa noite e boa sorte.

Velho Criticismo

Sou bacharel em Estudos Literários pela Unicamp, mestra em Teoria e História Literária pela mesma universidade e doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Acima de qualquer coisa, sou leitora, alguém que dedica a vida ao amor pelos livros e à crença de seu poder transformador. Minha coluna é um espaço sobre livros, arte, vida e contemplação.