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Era segunda-feira de Carnaval e já passava das dez da noite. Na luz, dava pra ver a chuva fina sendo carregada pelo vento para lá e para cá enquanto duas meninas dançavam no mesmo ritmo, de pés descalços. Naquela tarde, uma tempestade havia garantido que não faltasse lama e nem barraca molhada na Fazenda Evaristo – mesmo assim, não via rostos apreensivos.

Esperávamos pela principal atração do Psicodália totalmente entregues à experiência arrebatadora que o festival proporciona. Vai muito além dos perrengues. Poucas sensações são tão poderosas quanto a de receber a energia que emana da arte.

Quando chegou o momento e as primeiras estrofes de Jorge da Capadócia saíram dos lábios de Jorge Ben Jor, lá pelas dez e meia, senti o corpo vibrar. Parecia uma prece. “Que assim seja“, pensei comigo antes de me abraçar à simpatia do Zé Pretinho. Já era mais de meia-noite quando saí desse encontro extasiada, sem fôlego de tanto pular. Foi um espetáculo de cores e alegria, coisa única na vida.

Por essas e outras, penso que o Psicodália continua o mesmo: independente, levantando as nossas bandeiras e proporcionando um Carnaval inesquecível pertinho de Curitiba.

A vigésima primeira edição dessa festa multicultural recebeu mais de seis mil pessoas e ofereceu mais de duzentas atrações para entreter a todos esses convidados. Foram seis dias intensos perto da natureza, aprendendo um bocado sobre sustentabilidade, discutindo ativamente questões de gênero, expandindo repertórios musicais e convivendo com gente de mente aberta e sorriso nos lábios. Inclusive o Plá.

No domingo, acordei às onze ouvindo a voz do músico, que se apresentava no Palco do Lago. Já conhecia aquele som das ruas de Curitiba, mas era lá em Rio Negrinho que ele parecia em casa.

Uma vez por ano, o Psicodália alcança ares de lar para gente de tudo quanto é jeito e idade. Não é raro se deparar com crianças brincando de fazer bolha de sabão no mesmo espaço em que adultos tomam banho de sol totalmente nus. Dá para experienciar um modelo de sociedade alternativa nos limites da Fazenda Evaristo – e a convivência pacífica dentro dessa comunidade tão diversa tem base no respeito.

Texto por Jéssica Carvalho, especial para o Curitiba Cult.