Até a metade do século passado as marchinhas orientavam o Carnaval. Elas ditavam o ritmo com seus hits. Funcionava da seguinte forma: os compositores fabricavam suas músicas, entravam em concurso, a eleita seria a música do Carnaval do ano posterior.

Pois! Nestes concursos tinha só cachorro grande: Ary Barroso, Noel Rosa, Braguinha, Lamartine Babo. Sem contar os intérpretes, outros muito bem conceituados na música brasileira: Carmen Miranda, Sílvio Caldas, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, que transitava entre ambos (compositor e intérprete) – foi com ele que o samba e o Carnaval conheceram o apito.

E assim músicas como “Yes, nós temos banana”, “Bandeira branca”, “Mamãe eu quero”, “O abre alas” e muitas, muitas outras entraram no imaginário da canção popular.

Contudo, nem sempre a ganhadora do concurso conquistava o gosto do público, as rádios elegiam uma e o povo outra. Hoje, nem rádios, nem povo elegem nada. Há alguma força maior que não permite às marchinhas, ao samba, à música viverem de maneira salubre. O mais próximo de eleições que chegamos no nosso Carnaval – e pode-se dizer que é o expoente a olhos nacionais e gringos – são os desfiles das escolas de samba.

Ela, que surgiu em 1927 com a Deixa Falar e assistiu grandes sambistas comandarem essa farra, hoje nos orgulha com manchetes em jornais internacionais. Bom seria se a manchete não fosse a seguinte: “Le dictateur Obiang fait danser lês Brésiliens”, estampada no jornal francês Libération, assinada pela jornalista Chantal Rayes, em bom português: “O ditador Obiang faz os brasileiros dançarem”.  A saber para quem não sabe…

Obiang é o sujeito que financiou a escola Beija-flor de Nilópolis, cujo enredo contava a história do país africano Guiné Equatorial, no qual ele dita as ordens há 35 anos. A escola sagrou-se vencedora, o Libération vendeu notícia boa e o Carnaval, como assinalou Marcelo Camelo, teve seu fim. E é o fim!