Natural seria escrever sobre a Elza Soares, o João Bosco ou o Otto após a Corrente Cultural. Mas Tim Maia paira e para na minha playlist por dois motivos: vi o filme, é bom.

O Tião Marmiteiro, como era conhecido na Tijuca, bairro carioca que nasceu e cresceu, foi o responsável por trazer o soul ao Brasil, após uma estadia nos States.

O síndico do Brasil ficou conhecido como o “rei do soul”, seu primeiro LP foi gravado por indicação dos Mutantes, que estouravam após a fase dos festivais. Tim emplacou sucessos como “Azul da cor do mar”, lançado em 1970 pela Polydor. O LP seguinte veio com mais sucessos, em 1971 foram lançadas “A festa do Santo Reis”, “Não vou ficar” (que tem uma versão maravilhosa na voz da Célia) e “Não quero dinheiro”. E até 1973 foi assim, um álbum por ano com a qualidade da voz de Sebastião Rodrigues Maia.

Após esses anos de sucesso, o bêbado, drogado e talentoso Tim Maia descobre a seita Cultura Racional, cegado por ela abandonou todos seus vícios e continuou a fazer música. É unanimidade que os dois álbuns gravados enquanto ele fazia parte da Cultura Racional são pérolas da música, se não fosse a letra catequizante. A gravadora recusou-se lançar os álbuns Tim Maia Racional um e dois. Foi quando ele criou seu selo, a SEROMA, iniciais do seu nome e “amores” ao contrário, como era de fato o gorducho, às avessas. Tornou-se desta maneira um dos primeiros músicos independentes do Brasil, numa época em que as gravadoras monopolizavam os artistas.

Após decepcionar-se com a Cultura Racional, voltou ao sexo, drogas e muito soul. Mas a moda era a Disco Music e gravou em 1978 “Tim Maia Disco Club”, álbum que contou com a participação da Banda Black Rio, Pepeu Gomes, Hyldon, além de outros.

A década de 1980 abriu com Tim Maia sendo um dos artistas mais populares e assim manteve-se lançando pelo menos um sucesso por ano. Já de cara veio “Você e eu, eu e você (Juntinhos)”; em 1981, “Do Leme ao Pontal”; em 1982 Sandra de Sá gravou “Vale Tudo”; em 1983 o álbum “Descobridor dos Sete Mares”explodiu. E assim permaneceu até o final da década de 1980.

Na década de 1990 também conseguiu lançar significativos trabalhos, foram nove discos em sete anos. Mas o consumo exagerado de drogas uma hora bateria à porta. Foram vários problemas de saúde. Durante uma apresentação passou mal, foi internado e morreu uma semana depois, em 1998.

Tim Maia partiu tão intenso quanto chegou. Sua música é tão boa como foi seu espírito. No filme dá pra ver um bocado, mas o livro de Nelson Motta tem histórias inenarráveis, indescritíveis e inacreditáveis.