Quem ouve tango lê Argentina, quem dança tango passeia por Buenos Aires. Porém, nem sempre isso foi assim. Tivemos nós o nosso tango – o tango brasileiro ou o tanguinho.

De trajetória curta foi esquecido pela nossa cultura, foi criado na segunda metade do século XIX e jogado às favas no início do século passado. Bibliografia? Quase não existe. Mas quem fala sobre diz que o tango brasileiro é uma adaptação da havanera, ritmo que chegou ao Brasil pelas companhias de teatro musicado europeu, batido no liquidificador com as duas músicas de dança mais populares dos anos oitocentistas, a polca e a schottisch.

Muitos dizem que quem fundou o tanguinho foi Ernesto Nazareth (foto), contudo é mais garantido atribuir sua autoria, de acordo com José Ramos Tinhorão, ao maestro carioca Henrique Alves de Mesquita (1830-1906). Nazareth, no entanto, não está totalmente descartado neste baralho, a ele cabe, como pianista, a sofisticação do gênero que tomou um caráter mais para apreciar que para cantar ou dançar, por isso passou longe do gosto das grandes camadas urbanas que se identificavam muito mais com a polca e o maxixe, pois eram dançantes. O que Nazareth fez de maneira proposital, pois o maxixe era muito popularesco para toda sua erudição.

A partir da segunda metade da década de 1880, o tango surgiu ligado a músicas cantadas em quadros de teatros de revista, mera enganação, leitores, pois elas não passavam de lundus-canções ou maxixes. O primeiro registro que se tem notícia desta “fraude” é de 1885, quando na revista Cocota, os autores da peça, Artur Azevedo e Moreira Sampaio, fizeram que Felipe de Lima cantasse o tango Araúna, que nada tinha a ver com os tangos para piano de Ernesto Nazareth, apenas conseguia a façanha de parecer melancólico e frenético ao mesmo tempo.

Em meados da década de 1910, tango ou tanguinho serviam apenas para dar nomenclatura a novos ritmos que não se sabia muito bem o que eram ou que não tinham outro nome sugestivo. Caso da polca-choro de Marcelo Tupinambá de 1918, o tanguinho Viola cantadeira.

Na década de 1930 viria o sepultamento do nosso tango, muito em decorrência do ritmo homônimo argentino, cuja confusão foi inevitável. E também todos os ritmos sem nome foram a ganhar suas alcunhas a fazer, dessa forma, desnecessária a presença do coringa.

Curioso pensar que o tango brasileiro foi o nome do então emergente ritmo que tornou-se um dos mais populares no país, a canção sertaneja.