Todo fim de mês, a coluna Not Today Satan traz uma história sobre descoberta, aceitação e saída do armário de uma pessoa LGBT. O objetivo deste quadro é aproximar a reflexão “epistemológica” da luta enfrentada com os pés no chão. Abrimos esta série com a história de Luiza Cabral, 20, que precisou superar os perfis fakes na internet para se aceitar e se assumir como lésbica. Confira o relato:

“Eu morava em Goiânia com minha mãe, pai e três irmãos. Minha história começa em 2010. Eu fazia o primeiro colegial quando comecei a conviver com pessoas lésbicas. Tentei me aproximar de algumas delas porque achava todas legais no estilo, no jeito de pensar e todo o resto, mas não deu muito certo.

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Luiza Cabral é estudante de arquitetura e faz desenhos realistas (Foto: Arquivo pessoal de Luiza)

Entretanto, eu comecei a me questionar quando uma dessas meninas lésbicas perguntou se eu era homossexual também. Fiquei intrigada com isso, porque pensei que era óbvio demais o fato de que eu era hétero. Comecei a participar de um grupo de teatro, através do qual fiz amizade com algumas pessoas bi e uma lésbica, que chegou a me dizer que eu era lésbica sim, só que eu não sabia disso ainda. E ao perguntar o porquê, ela disse que eu tinha jeito e me indagou sobre o modo de como eu reparava nos meninos e nas meninas. Foi conversando com ela, que vi essa possibilidade de ser lésbica mesmo.

Na época, eu namorava um garoto à distância por meio de um perfil fake. Ele era de Porto Alegre e a gente se conheceu no fake. Apenas minha mãe sabia disso. Então, eu não tive muita curiosidade em saber se eu era ou não lésbica, porque realmente gostava desse garoto. Cheguei a namorar ele por um ano, e nesse tempo não fiz muita questão de saber muito sobre minha sexualidade. Ela tava de boa do jeito que tava, eu tava feliz sendo hetero. Mas eu já sabia, depois da conversa que tive com aquela amiga, que eu tinha atrações por meninas. Quando terminei com esse namorado a distância, nós mantivemos amizade, mas eu queria voltar a namorar outras pessoas. E eu já tinha me envolvido com outros garotos, mas eu queria mesmo um apego emocional maior.

Eu já tive melhores amigas que, hoje, eu sei que sentia muito mais do que amizade. E eu queria ter esses sentimentos por outra menina e ser correspondida. Daí eu fiz um fake em que eu era um homem, acabei conhecendo uma garota e me apaixonei. Depois de um tempo, contei que era uma mulher e ela aceitou de boa. Aparentemente ela era bi. Então, deu tudo certo. Namoramos algumas semanas, foi super intenso, mas terminamos e hoje somos amigas. E essa brincadeira de fazer fake masculino também aconteceu outra vez, também foi muito intenso, só que contar pra garota que eu era menina não foi legal. Então eu simplesmente parei com isso e comecei a fazer fakes femininos.

Eu me assumi pra minha irmã em 2011. Ela sempre teve malicia demais, sempre foi esperta demais. Ela sabia que meu all star, meu jeito “roqueira” e minha mania de não contar nada da minha vida e me envolver em fakes tinha algo mais. Eu cheguei na casa dela, e no meio das cervejas e brincadeiras, eu disse que gostava de mulheres. Ela ficou séria na hora, o que é estranho se tratando dela. Mas não demonstrou preconceito nenhum. Ela disse que era como se eu dissesse que eu gosto de usar calça, e ela não gostasse, ou seja, ela não poderia me julgar por gostar de usar calça. Naquele momento, eu percebi que não estava, de fato, preparada pra contar pra minha familia, porque eu não tinha me assumido pra mim ainda.

O primeiro beijo

Alguns meses se passaram, parei de me envolver com homens, fiquei um bom tempo sem ficar com ninguém, mas ainda gostava daquele meu primeiro namorado e ainda éramos muito amigos. Contar pra ele também foi difícil, porque ele era religioso e pra “amenizar” a historia, contei como se fosse apenas uma fase. Ele não comentou muito. Em 2012, mudei-me pra Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Foi quando larguei o fake, me esqueci dessa história de ser lésbica, já que eu estava constantemente em conflito comigo mesma sobre isso, e fui viver mais minha vida do terceiro colegial. Estudar, fazer novos amigos, pensar no meu futuro, sair e conhecer a cidade.

Na segunda vez que fui em boate gay, fiquei com uma garota na porta. Primeira menina que de fato beijei. Conversamos depois, tentamos marcar alguns encontros, mas ficamos apenas na amizade mesmo.

Eu sou lésbica

Liguei pra minha mãe chorando, no dia das mães de 2013, e contei pra ela que tava ficando com meninas. Contei porque pensei que se ela não aceitaria, e como eu morava com meu pai, não estava nem aí. Ela não esperava que fosse daquele jeito, naquela hora. Conversamos bastantes, e acabou me botando muito medo ao falar que meu pai não aceitaria de forma alguma, por puro nojo.

Minha familia sempre foi de fazer piadas ruins com gays. Meu pai especialmente. Já discordava dele e do meu irmão mais novo antes mesmo de saber de mim. Enfim,  fui trazendo minha mãe mais pra minha vida. Apresentei ela a minha primeira namorada. Ela reagiu bem, foi educada, quis conhecer ela mesmo.

Aí, logo em seguida, liguei pro meu irmão de São Carlos e contei. Foi engraçado, porque ele realmente nunca imaginou. Ele pensava que aquele meu jeito era só uma fase, que logo iria começar a usar saias e ouvir sertanejo. Mas ele pediu para não contar pro meu pai que ele sabia. Eu disse que meu pai não sabia ainda.

Meu namorado é uma garota

Enfim, em julho de 2013, meu primeiro namorado do fake, aquele de Porto Alegre, disse que era uma garota. E eu ainda gostava muito dele, o que foi bom pra mim. Agregou o que eu sentia emocionalmente com o que sentia sexualmente. Em outubro, eu a conheci. E começamos a namorar. O nome dela é Letícia. Mas ela não é assumida.

Ela se aceitou quando contou pra mim, quando a gente se conheceu, quando a gente ficou e tudo mais. Se assumiu pra ela mesma. Eu fui ver ela com meu pai, inclusive. Disse que ela era apenas uma amiga. E no ultimo dia, quando já tava batendo o desespero porque eu iria embora (ela mora no Rio de Janeiro), eu contei pro meu pai.

A gente tava na praia de Copacabana no dia 22 de outubro de 2013, bem cedo. Ele ficou um tempo sem falar e depois falou que já desconfiava. Porque um dia eu tava no meu quarto falando no skype com uma menina de madrugada e ele me ouviu falar “Eu te amo”. Ele sabia que não era um eu te amo de amigo.

Ele reagiu de boa. Primeira pergunta foi se tinha meninas na minha vida, a segunda foi se meu irmão mais novo, com quem ele sempre falava mal de homossexuais, sabia. Eu disse que não.

Depois disso chutei o balde. Comecei a postar coisas no facebook. Dali um pouco minha familia de Goiânia jogou verde pra minha mãe, que disse que eu era lésbica sim.

Preconceito

Não sofri homofobia diretamente na minha familia. Sofro na rua e sinto medo, mesmo que seja idiotice às vezes, mas minha namorada enfrenta.

Se assumir não é algo que você tem que pensar demais, criar coragem e tudo mais. Tem que ser por impulso, tem que ser num momento em que você ta tendo uma conexão emocional grande com a pessoa. E tem que, principalmente, ligar o foda-se. Porque vai ter quem vai julgar sim. A melhor coisa que eu fiz foi assumir pras pessoas principais da minha vida e deixar a fofoca rolar. Fui agregando a Letícia mais e mais à minha familia. Tratei meu relacionamento como qualquer outra pessoa hetero faria. Tratei com igualdade, é preciso exigir que seja tratado e visto assim.

Letícia se assumiu para o pai, que é de familia religiosa, e ele não aceitou. Mas ela está sempre falando de mim, sempre falando que vem me ver, isso ou aquilo, então ele meio que parou de ser tão revoltado com isso e passou a aceitar mais, mesmo que não totalmente.

Luta pelo movimento

Não participo ativamente da luta LGBT, no sentido de ir a manifestações, atos, etc. Tento desconstruir o preconceito no dia a dia, em palavras e frases ditas por amigos ou conhecidos, as vezes por preconceito, mas muitas delas por desconhecimento, porque nunca pararam e refletiram sobre aquela sentença que ouviram e reproduziram a vida inteira. Muitos ouviram dos pais, avós, etc. O preconceito foi herdado, e precisa ser repensado para se extinguir. Infelizmente, não é um processo rápido, mas fico feliz de ver a mudança em uma, duas, dez pessoas que conheço. E acho que todo mundo deve ser responsável por isso!