Em ‘Perguntas de um operário que lê’, disse Bertold Brecht: “César venceu os gauleses./ Nem sequer tinha um cozinheiro a seu serviço?” e também “O jovem Alexandre conquistou as Índias/ Sozinho?”. Tantas histórias, quantas perguntas, quantos esquecidos. Tom Jobim compôs “Desafinado”, e quem mais? Elis Regina cantou “O Bêbado e A Equilibrista” porque alguém escreveu, mas quem? Tantas músicas, quantas perguntas.

O sucesso é ingrato, não é para todos, não cabe todo mundo nele, alguns trabalham para que ele aconteça, alguns trabalham para desfrutá-lo.

Baby Consuelo, Moraes Moreira e Pepeu Gomes desfrutaram da fama com os Novos Baianos. Méritos? Sim, os têm. Mas, Luiz Galvão? Por que nunca falam do Luiz Galvão? Vocês o conhecem, ele vai mostrando como é e vai sendo como pode, jogando seu corpo no mundo. Bingo! Mistério do Planeta é dele, parceria com Moraes Moreira.

Ou se eu disser que o Newton Mendonça desafina amor? E que isso provoca imensa dor? João Gilberto não desafinou sequer um cadinho quando fez sucesso com Desafinado, alguns doidos já garantiram que a composição é do próprio João. Engano! Newton Mendonça e Tom Jobim, amigos de infância, compuseram essa, além de outros clássicos como Caminhos Cruzados, Meditação e Samba de Uma Nota Só.

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Álbum Caça à raposa de João Bosco, composições dele e Aldir Blanc

Há um caso diferente que envolve toda minha gente: Filó Machado (foto de destaque). Inexplicavelmente não estourou como um dos expoentes da MPB dos anos 1960 e 1970. Tem todas as características para ser um Djavan, Luiz Melodia, Caetano Veloso, Chico Buarque ou Milton Nascimento, é cantor, compositor e músico, no entanto, não foi desta vez, camarada! Poucos sabem do seu nome.

E O Astro? Novela da TV Globo, de 1977, re-exibida em 2011, com o astro da dupla Bosco-Blanc a cantar a música de abertura, Bijuterias, “minha pedra é ametista…”. João Bosco tomou pra si o sucesso, pois ele fazia a linha de frente ou linha de passe (outra música da parceria), era o cantor, o músico que lançava discos, mas as músicas dele têm aquele bom humor e carga política por causa de Aldir Blanc, seu letrista. Conheceram-se no Movimento Artístico Universitário (MAU) – movimento que lançou nomes como Gonzaguinha, Ivan Lins, César Costa Filho – na década de 1970.

O próprio João Bosco foi um pouco marginalizado após os sucessos de suas músicas na voz de Elis Regina. A Pimentinha imortalizou “O Bêbado e A Equilibrista”, mas também gravou “Bala com Bala”, “Dois pra lá, dois pra cá”, “O Mestre-sala dos mares”, além de outras.

Há inúmeros outros operários da MPB que não são lembrados, como Dalmo Castello, que fez parceria com Cartola, Humberto Teixeira que compôs sucessos com Luiz Gonzaga, e por aí afora, são marginalizados, porém jamais esquecidos, pois seus nomes perpetuam-se nos acordes e letras das canções.