Quando Zé Celso Martinez no teatro, Glauber Rocha no cinema e, sobretudo, Caetano Veloso e Gilberto Gil na música fundiram elementos dos mais diversos de maneira híbrida e sincrética sabiam que estavam a dar um novo rosto à cultura popular do Brasil, era algo que já existia, já estava pronto no seio da brasilidade, só faltava por no liquidificador e bater.

Caetano e Gil bateram Beatles com bossa nova, Luiz Gonzaga com jazz, samba com Jovem Guarda. Dava-se início assim, no final dos anos 1960, ao Tropicalismo, movimento que buscou expressar o velho de jeito novo. Introduziram no que viria a ser a MPB a guitarra elétrica, um dos grandes símbolos que marcou a história tropicalista. Em 1967, tempos de ditaduras e marchas, artistas reuniram-se contra este instrumento, a ala conservadora emepebista, inflamada pelo nacionalismo, acreditava que a guitarra não traria somente o instrumento em si, por trás dela tinha “um monte de lixo americano”, como falou Chico de Assis, um dos jurados nos famosos Festivais de Música Popular. A galera da Jovem Guarda, influenciada pelo rock americano e pela americanização, com suas bandinhas de rock e cortes de cabelo, foram postos à margem da dita música popular brasileira.

Porém, Caetano e Gil (e não só eles, que fique bem claro) deram o jeito de unir o programa de Carlos Imperial, responsável por revelar os talentos da Jovem Guarda, com músicas de Carmen Miranda. Conseguiram. Ponto positivo.

O Brasil, no entanto, vai além do eixo Rio-São Paulo – ou, na melhor das hipóteses, Sudeste-Nordeste. Há outras coisas que ficaram à margem do Tropicalismo, a começar pelo próprio nome. Quem tem o mínimo de conhecimento geográfico sabe que o Brasil não é só litoral, muito menos exclusivamente tropical, pois do Trópico de Capricórnio para baixo o Brasil tropical passa a ser o Brasil temperado.

E no sul, como a história mostra, o país é outro, é um dos vários brasis. E querer unir todos num único estereótipo é algo descabido e impossível. Por menos deterministas biológicos que sejamos, o clima não permite que nós sulistas tenhamos uma vivência tropical. Tropicalista, talvez, mas com uma identidade própria. Foi isso que fez Vitor Ramil.

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Foto: reprodução

O compositor de Pelotas não se identificou como um brasileiro tropical e acertou na escolha. Cá no sul temos frio, precisamos nos encapar para sair de casa, temos neve e geadas. Temos nossa cultura e necessitamos de uma estética que nos una. Ramil sugeriu a “estética do frio”, escreveu um livro para descrevê-la, eis o que diz: “Precisamos de uma estética do frio, pensei. Havia uma estética que parecia mesmo unificar os brasileiros, uma estética para a qual nós, do extremo sul, contribuíamos minimamente; havia uma ideia corrente de brasilidade que dizia muito pouco, nunca o fundamental de nós. Sentíamo-nos os mais diferentes em um país feito de diferenças”. Ele vendeu seu peixe e aplicou a estética do frio nos gaúchos, mas a apropriação dela para os que habitam a região sul e se identificam com tal cultura parece válida.

O sentimento de distanciamento das pessoas do sul com o resto do Brasil, talvez pela grande carga de imigrantes ou pelos desfechos históricos, em determinados aspectos poderia marginalizar esta parte do país, mas Ramil expressou de maneira sensata o que as pessoas do sul são: “Não estamos à margem, mas ao centro de uma outra história”.

O hibridismo sulista é tão rico que se manifestou na música com o surgimento de vários movimentos como o Templadismo, termo criado por Daniel Drexler, irmão do Jorge, a fazer um trocadilho com Tropicalismo, mostrando que no sul, aqui leia-se Argentina, Uruguai e sul do Brasil, também há fusões de culturas; e também a própria estética do frio. Uruguaios, argentinos e gaúchos conseguiram elevar a milonga, ritmo quase folclórico, ao status de música contemporânea. Nomes como Ramil, Daniel e Jorge Drexler e Kevin Johansen são responsáveis por essa revolução que acontece na música que um dia foi classificada apenas como regionalista.