As manifestações de ontem me causaram diferentes reações. Surpresa, por dois motivos: o primeiro é óbvio, a quantidade de pessoas que se sujeitou a lutar por um país melhor. Que preguiça que o país melhor delas se resolva com intervenção militar e o boicote daquele marxista de merda do Paulo Freire, não compreendo, mas cada um com suas convicções.

Outra coisa foi o que o The Guardian também percebeu. Aliás, todo mundo percebeu, nas palavras do jornal, um protesto “mais velho, mais branco e mais rico”. Isso descola a atenção porque um velho branco rico não se incomoda muito, um branco rico se incomoda um pouco, mas nada que o controle da televisão ou o Facebook não resolvam; e um rico não tem por que se incomodar, não com o país, pelo menos. Poucas vezes se incomodou e a meritocracia reina: “quer ter, tem que fazer por merecer”. Claro que nem todo mundo é assim ou assado.

Miguel Rossetto, ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, afirmou com muita certeza que os dois milhões e tanto (carece de fontes) que foram às ruas ontem não são eleitores da Dilma, assim sendo outra coisa fez-me estar atento. Como os simpatizantes, os defensores, os escudeiros, os soldados, os eleitores da presidente comportar-se-iam. Meu termômetro foi o Facebook, mais preciso que pesquisa Ibope: parece que houve uma espécie de recalque, não sei, o lado esquerdo do país desmereceu a passeata, a dizer a mesma coisa que o The Guardian, em tom irônico e pejorativo. Creio que – posso estar errado – os velhos brancos ricos, velhos, brancos e ricos, velhos ricos e brancos, velhos e brancos ricos e todas as combinações possíveis podem se indignar, mas também não me interessa muito, ao contrário o que disse Aristóteles, eu não sou um animal político.

A última coisa que me causou foi uma mistura de vergonha com revolta, talvez nesse momento me revelei como um ser político. A assistir aos cartazes pensei que era algo piegas, tão piegas quanto aquela passeata contra a guitarra elétrica de 1967. Tanta coisa que o regime militar proibia, por que não boicotou essa coisa ridícula?

Trazia o slogan “Defender o que é nosso”. O que é nosso, cara pálida? Num país sincrético e heterogêneo como o Brasil, nada é nosso, tudo é nosso e ao mesmo tempo não. O samba não se sabe se é nosso. Nara, que não participou, falou no dia para Caetano Veloso – que também não estava presente – que aquilo tudo parecia uma manifestação do partido integralista.

A marcha foi liderada por Elis Regina, na época apresentava o programa “O Fino da Bossa”. Dizem que foi tudo uma manobra midiática, pois o programa – apresentado na TV Record – andava mal das pernas e perdia audiência. Gilberto Gil foi flagrado por paparazzis da época ao lado da líder, ele que no mesmo ano conquistou o segundo lugar no Festival da Canção com a música Domingo no Parque ao lado de sua banda – Os Mutantes – cheia de guitarra, diz que era um momento muito ativo de cidadania e ele foi porque a Elis convidou. Sérgio Cabral, o do bem, produtor musical, jornalista e escritor, participou, mas reconheceu tempos depois a tremenda idiotice que fora aquilo.

Naquele tempo a democracia nem imperava, hoje reina e permite coisas como essa ou coisas que pedem a intervenção militar ou o boicote ao Paulo Freire. Essa democracia! De todas, a menos pior. Aceitemos, senhoras e senhores.