Cocanha, o nome soa engraçadinho. É um universo em que tudo pode, tudo planta e tudo floresce. Cocanha é o nome de um país medieval, é o nome também do conto, são duzentos versos octossílabos que descrevem essa maravilha utópica medieval. Quando Saint-Simon ou Charles Fourier são lidos como uns dos primeiros utopistas, mal sabem os leitores que teve um francês, cuja identidade é desconhecida, no século XIII, que mostrava um mundo perfeito, onde era proibido proibir.

Em Cocanha a única coisa imposta está antes de chegar nela, o Papa obriga que se vá até o país. Um dos versos diz: “Quem dormir mais, ganhará mais”, num tempo que a usura (empréstimo com juro) era pecado. Em tempos medievos diziam que o usurário era tão pecador que enquanto todos dormiam o juro dele engordava.

As pessoas que lá habitam não são grosseiras, e sim valentes e corteses. E o calendário? Quaresma só a cada duas décadas, os dias que não são de festas, são domingos para o descanso. Feriados a rodo, claro que nesse caso todos são cristãos, como Páscoa e Natal.

E o melhor está por vir, a comida! As paredes das casas são feitas de peixes, onde se pode “pescá-los” quando quiser, o teto de bacon e o chão de linguiças. Para beber? Dirija-se ao rio mais próximo e pegue uma taça de vinho, pois lá em vez de água há vinho, metade é branco, metade é tinto.

Tanto as comidas quanto as bebidas não têm restrições, diz num verso “que ninguém ousa proibir”. Em Cocanha tudo é de graça, a única regra é não ter regras. É proibido proibir.

E é aqui que entra a música, ao ler sobre Cocanha, inevitavelmente cantei “derrubar as estantes, as estátuas, as vidraças, louças, livros, sim! Eu digo sim, eu digo não ao não! É proibido proibir!”

Cocanha ainda não existe, os sete pecados capitais ainda estão em nosso imaginário. O Maio de 68 já aconteceu e o Caetano já “gritou” sua canção “É proibido, proibir”.

Quando for ouvir a música, procure a versão do festival, mas se quiser ouvir a de estúdio, fique à vontade, aqui não é Cocanha, mas também é proibido proibir.