Fui acusado de ter como referências somente Tom, Chico, Vinicius e Caetano. Acusaram-me também de ser um bocado pretensioso e subjugar  a inteligência alheia. Escracharam um texto meu aqui na coluna Acordes. O pior, ou o melhor, com razão. Baixei minhas orelhinhas e dei razão ao interlocutor, em partes. E prometi a ele e a mim escrever textos mais substanciosos, juntarei tutano para tentar, se não superar, pelo menos chegar às expectativas…

Resolvi ir ao âmago da música brasileira, contar do início como aconteceu toda a bagaça. Para tanto, fui até a modinha, considerada até hoje o primeiro gênero de canção popular brasileira, para passar bem longe de Tom e Vinicius, Chico ou Caetano.

Uma das primeiras informações que temos é de um escritor que ainda não desvendaram sua nacionalidade, pode ser um portuga ou um baiano, sabemos que Nuno Marques Pereira descreveu em “Compêndio narrativo do peregrino da América”, editado pela primeira vez em 1718, o seu horror em ter ouvido na Bahia um cantor ao terminar a copla dizer “Oh! Diabo!”. Isso poderia significar somente um moralismo de Nuno, porém mostra uma inovação musical, pois ao que tudo indica a frase final sinaliza um breque.

Quem rompe definitivamente com o moralismo na música é o carioca Domingos Caldas Barbosa (as cantigas da foto acima são dele), poeta e violeiro, nascido no Brasil em 1740, quando aparece, em 1775, em Lisboa a cantar acompanhado de uma viola e de uma malícia que chocava tanto quanto seus estribilhos. Pelo que podemos ver o despudor brasileiro não nasceu no Carnaval. Antônio Ribeiro dos Santos, um gajo doutor em cânones, ainda em anos oitocentistas, impressionou-se com tanta descompostura nas cantigas de amor brasileiras, afirmou com um pudor ofendido: “Corei de pejo como se me achasse de repente em bordéis, ou com mulheres de má fazenda”. Má fazenda? Velhos costumes velhos.

A modinha é a liberdade da libertinagem depois de um absolutismo e rigorosas regras morais impostas pela Inquisição. Logo, qualquer expressão contra esse moralismo opressor era bem-vinda, tanto cá quanto lá. O próprio Ribeiro dos Santos cedeu alguns elogios a Caldas Barbosa: “Eu admiro a facilidade da sua veia, a riqueza das suas invenções, a variedade dos motivos que toma para seus cantos e o pico e a graça dos estribilhos e ritornelos com que os remata”.

Porém, ao cair no gosto geral ela passa por um processo inverso. E vai de popularesca para camerística, transformam-na numa música de salão, para que todos os aristocratas portugueses pudessem dançá-la sem vergonha. Quando torna ao Brasil, com a corte em 1808, a renacionalização ou o fim do ostracismo, se dá com uma geração urbana e burguesa, todavia bem diferente da de Caldas Barbosa.

O que esta nova modinha conseguiu foi ser a mãe do choro, além do violão, a flauta entrou na dança. Anos mais tarde o cavaquinho seria incorporado e teríamos então o trio instrumental clássico do choro carioca. Mas isso são outras palavras, para outras colunas, para outras semanas…