Por estar e querer estar alienado ao momento político da cidade e do país ele se prendeu ao momento cultural da cidade e do país. Mais precisamente à música. Lá estava ele, atento com os ouvidos no choro um a zero, Pixinguinha fizera com que de música gostasse. Pegava seu toca-discos e deixava no repeat e Pixinguinha tocava a manhã inteira.  Ele vivia numa esquizofrenia temporal, não sabia quando o presente se tornava o futuro que entrou no passado.

Os bondes já eram ônibus, a política já era greve, os toca-discos já eram Iphones, mas Pixinguinha sempre fora o mesmo Pixinguinha. Alheio aos professores e às greves ele não sabia se posicionar, era receoso, não conhecia a causa, as reivindicações, estava com um texto de André Diniz a mão com o título Estátua majestosa da música quando começou o chorinho de Pechinguinha. A coincidência não o deixava ler cartazes, apoiar a causa, descer do ônibus. Naquele momento estava entregue à música e à história dela.

Se deliciava quando lia que Pixinguinha é um apelido que veio de “bexiga”, o nome popular de varíola, aí veio “Bexinguinha”, “Pechinguinha”, Pixinguinha! Como? Ninguém sabe, mas soa deveras bem para o melhor músico do Brasil. Afinal alguém já disse, deve ter sido o Ruy Castro ou Sérgio Cabral, que se temos que por os dez melhores nomes da música brasileira iremos sofrer, mas se temos somente um a tarefa é fácil, agarremo-nos em Pixinguinha, a frase deste autor quase desconhecido soa melhor, mas é isso. (Enquanto pensava em tudo que é frase, a trilha sonora continuava no repeat e um a zero passou a ser uns sete a um.)

Novamente leu o título, Estátua majestosa da música, que título, André Diniz conseguiu definir Pixinguinha, autor da famosa Carinhoso que recebeu a letra de João de Barro, o Braguinha. Continuou com o texto, ele que tocou em cinemas, com o grupo Oito Batutas, ele que arranjou músicas icônicas como Pra você gostar de mim, de Joubert de Carvalho, interpretada por Carmen Miranda, ele que conseguiu ter uma das mortes mais lindas e emocionantes: Pixinguinha tinha acabado de entrar na Igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, ia batizar uma criança. Era fevereiro, era carnaval, era 1973, Pixinguinha sentiu-se mal e ali com os foliões do lado de fora e os santos do lado de dentro, morreu, em paz.

Coisas mil poderia pensar o nosso garoto do século XXI sobre o Pixinguinha, mas o um a zero ainda toca e ele continua alheio a tudo e qualquer coisa neste momento que não seja a Estátua majestosa da música.