Uma senha sera enviada para seu e-mail

De poeta e louco todo mundo tem um pouco, e disso a gente sabe. Pensando nisso, o Curitiba Cult resolveu selecionar alguns dos nossos produtores de poesia local para falar um pouquinho sobre seu trabalho e trazer, de cada um, um poema para você se deliciar com os prazeres que as letras podem trazer. Vamos conhecê-los? Salientamos que se trata apenas de uma amostra do que eles têm a oferecer e que visamos facilitar o acesso à pesquisa de seus trabalhos.

Marcio Davie Claudino

Autor de O sátiro, foi vencedor de alguns prêmios literários. Formou-se em Letras pela UFPR, onde frequentou o mestrado, desenvolvendo estudo sobre a poesia contemporânea curitibana. Traduziu idiomas canoros e fabricou seus primeiros escritos aprendidos com animais soberbos, tristes, plácidos e alegres: pássaros (claro!), rãs, grilos, anfíbios, répteis, cães, gatos e insetos ruins. Tem paixão por livros e ruínas, onde gosta de habitar. Verdadeira obsessão por um certo tipo de mulheres desorientadas, de olhos oblíquos e febris, alheios e potencialmente suicidas.

Epitáfio

Em nossa casa rodeiam-nos os vivos

que chegam com palmas e ofertórios.

E eu leio alto com tremuras na voz:

“Porque o amor é forte como a morte

e duro como a lápide”

(Um raio cortado de sol mágico fende a janela,

tu repartes os cabelos da boneca e me acordas com um beijo).

Adriano Smaniotto

Poeta, publicou inúmeras produções. Entre suas performances poéticas destacam-se recitais de poesia pelo Ministério da Cultura (1997), Fundação Cultural (1998), “Porão Loquax” (2006 a 2008), “Café, Leite Quente e Poesia”- SESC-Pr (2010), Virada Cultural (2011), “Vox Urbe” (2011,2012), Passeio Público (2012), Rádio Caos 15 Anos (2013).

As classes

Quando o juiz Triplex Ecoville Hiunday

senta-se diante do promotor Batel Resort Cruzeiro

para julgar o caso da professora Piraquara Buzão Inadimplente,

o réu Trindade Cola Carbex

sente a mesma vergonha que sentia na escola:

ele sabe

que nunca teve a última palavra

e que se agora resolver gritar que vão todos à merda

o policial Cohab CIC Sem Faculdade

virá calá-lo com sua botina

como faz com os Cabeludos Classe Média Baixa Poesia.

Então se cala pela milésima vez

e só suaviza seu olhar

a presença da jornalista Água Verde Tuiuti Peugeot 207

que frígida e mimada

sente por cinco minutos

que a vida deve estar bastante errada

mas logo se tranquiliza

e aceita o cafezinho

com que a servente Caiuá SUS Assembleia de Deus

sorridente vem brindar

este nobre julgamento

Na Cidade Sorriso Postiço

Carros Pra Todo Lado

Prefeitura dos Ricos

neste lindo Paraná invisível.

LUCI COLLIN

É formada em piano (Escola de Música e Belas Artes do Paraná 1980), letras português/inglês (Universidade Federal do Paraná 1989) e é atualmente é uma das professoras da Universidade Federal do Paraná (UFPR), lecionando literatura de língua inglesa e tradução literária. Participou de antologias nacionais e internacionais (Alemanha, Argentina, EUA, Uruguai), recebeu prêmios de concursos de literatura no Brasil e nos Estados Unidos, além de ter sido a escritora brasileira que representou o Projeto Literário no EXPO 2000 em Hannover.

Uma tarde que cai

Quando o vemos está sentado no banco da praça

Ela está em casa presa à trama silenciosa

Na praça pássaros e flores são sinceros

Na janela pássaros são fantasmagóricos

Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa

Ela enxuga os olhos com a manga

Ele rosna mas só por dentro

Ela supura mas nunca aos domingos

Ele lastima porque o pão é azul

Ela suspira e a tarde muda se avelhanta

Ele pergunta se as janelas são sinceras

Ela pensa em se atirar nalguma água

São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos

A gangrena e a borra são absolutos

Quando o vemos está em frente à TV imaterial

Ela está de costas de bruços de borco

Ele está palitando os dentes à espera

Ela vazia

Ele está entardecente e flama

Ela boia sobre a água azulíssima

Ele tosse cospe resmunga lanceia vage

Ela fez as unhas e o bolo simples

A previsão do tempo anuncia chuva

Ela toca a pedra friíssima

Ele se ofende

Ela se ofélia 

Lembrando que o site Mallarmagens traz inúmeros outros para você conhecer. Tem até alguns poemas meus por lá.